The Kids are Alright

A espera pelo material era grande. Para diminuir a ansiedade, shows e músicas novas! Enquanto não chegavam os compactos, fizeram quase dez novas músicas e uns cinco shows pela cidade. Na tarde de um domingo (28/03), ao lado do Hellsaints (com membros do Abaixo de Deus e Paincult) fizeram um show ao ar livre na calçada do Tuca´s Bar (com Cassiano Magog cantando o cover da noite: Orgasm Addict, dos Buzzcocks). Outro show foi para dez gatos pingados, quando pela primeira vez tocaram no 92 Graus, abrindo para a banda July et Joe.

Cabelo bola na calçada do Tuca´s Bar

Paulo (cabelo bola) e Júlio no Tuca´s

Foi num domingo, dia 16 de maio de 93, que o PINHEADS começou a ter um público mais numeroso. Abriram para os “veteranos” Missionários, em um 92 Graus quase lotado. Estavam com um set list equilibradíssimo e com o público na mão! A platéia era formada por amigos e pela turma que gostava de punk rock em Curitiba.

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Meses depois, no final de julho, o material chegou! Disquinhos de vinil em caixas de papelão de um lado. Capas desmontadas de outro. Seiscentas cópias ficaram para o selo Bloody e as quatrocentas restantes para a banda. Passaram horas e horas na casa do Júlio, ouvindo o compacto ininterruptamente, enquanto dobravam e colavam as capas uma por uma.

Alguns discos eram vendidos por preços módicos. A maioria era cortesia para divulgar o trabalho. Outras cópias certeiras estavam separadas para divulgação via Correios do Brasil. Estavam acostumados a enviar/receber coisas pelos correios. Tinham o hábito de receber em casa, pacotes com fanzines, adesivos, camisetas, discos e fitas cassete.

O circo estava armado. Tinham um compacto, uma demo, camiseta, “adesivo de papel contact” e poucos e bons admiradores. O Caderno G da Gazeta do Povo escreveu: “FOR FUN EP – PINHEADS (Bloody): É impressionante como os caras conseguem uma precisão que arrasa qualquer ouvido. Inspirado na turma do punk californiano do melody hardcore – e isso fica mais que explícito na ode California – o trio manda em doze minutos seis bombas atômicas. Won´t Change For Good tem um ótimo punch, as letras carregam estruturas melódicas de três décadas atrás e o vocalista/baixista Paule, mesmo não tendo voz muito adequada, não deixa a bola cair”.

Adesivo de papel contact !!

Adesivo de papel contact !!

Houve um show de divulgação dos compactos, no qual o produtor Carlos Eduardo Miranda elogiou a música nova I´m Not a Nerd e o cover The Kids Are Alright do The Who. Na semana seguinte, no Berlim (porão do Bar do Hermes), tocaram junto com C.M.U. Down e Vupland, dia 31 de julho, o “mais frio da história de Curitiba”.

Neste show, o Rodrigo da marca Hocka Hey! ajudou na confecção de camisetas com o desenho da capa do compacto. As 15 camisetas foram vendidas rapidinho. Mais música nova e o cover da noite, American Jesus, foi bisonhamente cantado pelo amigo Zé Laporte.

A amizade do trio com os aniversariantes da noite, Mauricio Singer e Slash, foi se intensificando. Dudu apelidou Singer de Mauricião (pois já existia Mauricio Gaudêncio na turma). Mauricião tinha um programa na rádio Estação Primeira (Estação Laser) e foi o primeiro a tocar Nirvana nas ondas radiofônicas sulamericanas. O cabeludo Mauricião estudava com o ex-pinhead Hiro, na FAE, e começou a freqüentar os ensaios do trio. Em pouco tempo, era companhia inseparável dos PINHEADS. Se auto-intitulava o quarto integrante da banda. Não colaborava nas composições de novas músicas e letras, porém, ajudava o trio em tudo que fosse necessário.

Pinheads 31_de_Julho_93

JR. Ferreira com o seu 92 Graus, e com o lançamento de compactos de 13 bandas independentes, foi um grande incentivador da história do rock curitibano! A programação do 92 era intensa, sempre trazendo bandas de outros estados. A revista Bizz e quase todos os grandes jornais diziam que Curitiba era a Seattle brasileira. Quase sempre marcando presença nos shows do 92 Graus, os três Pinheads tratavam de entregar o seu compacto para as bandas que gostavam. Dessa forma, ficaram amigos dos cariocas do Beach Lizards e de muitos outros grupos.

Adesivo de papel contact - arte por Júlio

Adesivo de papel contact - arte por Júlio

Em um sábado, no meio de junho, estava agendado um show dos paulistanos Pin Ups. Dudu resolveu visitar o 92 Graus na passagem de som dos Pin Ups, à tarde. Entregou um compacto para o guitarrista e gente fina Luiz Antonio Algodoal, outro para a baixista Alê (que na época namorava João Gordo, dos Ratos de Porão) e outro para o roadie da banda.

Dudu sabia que o Farofa, roadie dos Pin Ups, era vocalista de duas bandas de Santos: Garage Fuzz (o Neri tinha uma demo do GF) e Safari Hamburguers. Dudu tinha o vinil que o Safari havia recém-lançado pela gravadora Cogumelo e tratou de entregar um compacto para o rapaz. De noite, chegou ao 92 e observou uma turma conversando. A roda era composta por um sociável Paulo Kotze, mais o publicitário Neri e a baixista Alê (que acabara de colocar um adesivo caseiro dos PINHEADS no seu contra-baixo, mesmo alertando que não tinha gostado da letra de California). Alê disse que havia gostado do compacto e que tentaria agilizar um show dos PINHEADS na capital paulista.

Anúncios

11 Comentários

Arquivado em 1993

Lotação máxima no 92 Graus

Animados e afiados, o trio se preparava para mais um show no 92 Graus, que promovia o Segundo National Garage. Desta vez, num sábado com uma banda paulistana chamada CUASZ. Dudu não entendeu porque JR colocou PINHEADS para abrir show de uma banda com som tão diferente, e ligou para o dono do 92 para saber o que precisava levar de equipamentos de bateria.

Pinheds Flyer_0808_93

JR informou Dudu que a banda CUASZ não viria mais e que estava pensando em colocar uma banda local (Garotos Chineses) para fechar o show. Dudu disse para JR deixar apenas PINHEADS na programação, pois naquela noite o show iria bombar e uma galera ansiosa marcaria presença para ver o trio. Como única banda da noite, fizeram uma boa passagem de som, colocaram uma faixa com o nome da banda atrás do palco e fixaram pedestais, microfones e pedais com silver tape.

A fita adesiva prateada ajudava a manter fixos os equipamentos precários da banda, e também auxiliava quando a platéia subia no palco. Provavelmente, esse show no 92 (dia oito de agosto de 93) tenha sido o mais legal dos PINHEADS! O local estava lotadíssimo, com todos os amigos (e algumas amigas) marcando presença. Começaram com aquela que seria a música de abertura dali pra frente: Oh Ja!.

"... remember the show is for you!!!"

"... remember the show is for you!!!"

Dudu estreava um pedal duplo e sorria ao ver amigos suados pogando e cantando junto. Vibrava, internamente, ao ver Júlio pulando como louco, para depois beber água no seu squeeze fixado (com silver tape) no pedestal do microfone. Sorria também ao ver “o seu baixista e vocalista” se desdobrando. Paulo cantava, tocava, pulava… tudo isso sem camiseta, mostrando um porte atlético a la Olga dos Toy Dolls. O único ponto negativo da noite foi o insano stage dive protagonizado pelo amigo Marcelo Mendes. Resultado: traumatismo craniano.

Recorte da sessão Acordes da Gazeta do Povo

Recorte da sessão Acordes da Gazeta do Povo

Paulo dormiu mal naquela noite, o jorro de adrenalina foi intenso. Tratou de eternizar aquela noite memorável fazendo a letra de uma música nova chamada No Public, No Show!:

“Dude, You can shout the first 1-2-3-4 Oh Ja! People just have fun/ Everyone´s jumping and stage diving, the mikes are on the floor/ Astonished girls are just looking from far. Sometimes they don´t know what they´re doing here/ Rescue the amplifiers, if you don´t want them in the air!!!/ We don´t want the statue of freedom just looking at us fixed at the ground/ Move yourself get the mike, sing with us this chorus/ Jump, shout, hang on, come up here to the stage, break everything we like your way/ Remember without you this place wouldn´t be agitated, keep the energy in the air!!/ Everybody knows each other, meet your friend at the pity, if you want trouble and fight, get away from this slam/ Forget now about your problems, you came here for distraction. You´re part of our family, remember the show is for you!!!!!”

1 comentário

Arquivado em 1993

Riot Squad

Semanas após o contato com o pessoal do Pin Ups, Paulo recebeu uma ligação telefônica da baixista Alê convidando para que abrissem o show de lançamento do novo álbum dos Pin Ups (Scrabby!), no Aeroanta de São Paulo! Outro detalhe deixou os PINHEADS ainda mais ansiosos: poderiam descansar o esqueleto após o show, no apartamento do João Gordo!

Gaudêncio, Júlio, João, Paulo e Dudu - 1993

Gaudêncio, Júlio, João, Paulo e Dudu - 1993

O primeiro show fora de Curitiba seria um batizado e tanto. Aeroanta de São Paulo abrindo para Gangrena Gasosa e Pin Ups (22 de agosto de 1993). Dudu iria tocar no mesmo palco no qual Jello Biafra estava um ano antes. O show foi legal. O bom público, conforme o esperado, não agitou como em Curitiba, mas a recepção foi boa. O som estava ótimo e recebiam aplausos após cada música. A educadíssima Alê já tinha pago o dinheiro das passagens e ainda deu um trocado simbólico para os PINHEADS (foi a única remuneração em show fora de Curitiba).

Dudu, Paulo e Júlio - Flyer do primeiro show fora de Curitiba.

Dudu, Paulo e Júlio - Cartaz do primeiro show fora de Curitiba.

Mais importante que o show foram os contatos. Primo Renato (juntamente com Renatinho, Mendes e Gaudêncio) acompanhou o trio nessa viagem e disse para Dudu entregar o compacto para uma dupla que prestava atenção à apresentação dos Pin Ups. Eram Carlos Dias e André, integrantes do Tube Screamers.

Pinheads Aeroanta_SP

Após o show, dormiram (juntamente com mais umas 10 pessoas) na sala do apartamento do João Gordo. João contou para os interessadíssimos curitibanos suas experiências em solo europeu cantando nos Ratos de Porão ou assistindo shows de bandas como Oi Polloi.

Gordo aproveitou para gravar um cd ao vivo do D.I. que a trupe curitibana tinha recém adquirido na Galeria do Rock. Em troca, liberou sua cedeteca para que fitas cassete fossem preenchidas com o supra-sumo do punk inglês. Dudu passou a noite em claro gravando Lurkers, The Boys, Rezillos, Adicts… enquanto isso, um integrante do Gangrena Gasosa copiava uma advanced tape (ainda não masterizada) com o futuro álbum do Sepultura (Chaos A.D.).

João Gordo também mostrou a gravação da coletânea que estava produzindo com as bandas I.M.L., Muzzarelas, Lethal Charge, No Violence e Kangaroos in Tilt. O final de semana tinha sido realmente agitado, pois no dia anterior foram ao lendário Der Temple assistir a um show do Safari Hamburguers.

Os PINHEADS foram à São Paulo pelo rock, para fazer show, para ver outros shows, pelo intercâmbio, para comprar novos álbuns. Eram bitolados em punk rock, e lamentavam o fato de alguns roqueiros locais e donos de loja de disco de Curitiba, irem à cidade em outubro de 93 para ver a turnê Dangerous do decadente Michael Jackson.

Roubada! Cancelado!

Roubada! Cancelado!

Uma apresentação no litoral paranaense foi agendada. Missionários, PINHEADS e um grupo chamado Bloqueio Mental se apresentariam no Riviera’s Snooker Bar, na praça central de Guaratuba. Com o cartaz pronto, o show foi cancelado dias antes.

Pinheads Flyer_Ghandja

Era hora de tocar e fazer mais música nova. Na noite de 18 de setembro, tocaram no Ghandja Bar (antigo Hell), ao lado dos Cervejas. A presença e reação do público continuavam excelente. Diversão para todos os lados. Nenhum cover no set list de 18 músicas.

Oh Ja abrindo, Plutoflipper´s fechando

Oh Ja abrindo, Plutoflipper´s fechando

O primeiro show no interior do Paraná foi em Apucarana, dia 25 de setembro. Tocaram numa boate chamada Kogumellu’s, numa festa de campeonato de skate. Lá conheceram os “punks” locais João Cabeção e Max Leean. Antes de andar de skate, no calçadão da cidade, visitaram a rádio local (Cultura 94.5 FM) para divulgar o show e falar uns palavrões leves ao vivo, para desespero do locutor de plantão.

Recorte do jornal Tribuna do Norte

Recorte do jornal Tribuna do Norte

A marca de surf wear Cruel Maniac ofereceu apoio para fazer as camisetas da banda e também forneceriam roupas para o trio. Sem pensar muito, aceitaram. Qualquer ajuda era bem vinda. Chegava a hora de tocar num lugar maior, e num domingo (24/10/93) agendaram um show no Syndicate. Era um espaço enorme, para mil pessoas, com uma boa área de street skate na entrada.

PINHEADS tocou pela primeira vez Forget The Problems e o cover da vez foi Living For Today, do Pennywise, ao lado de American Jesus. O número de pessoas era grande e os seguranças começaram a tratar com violência àquelas pessoas que subiam ao palco, ou que pogavam com mais energia. PINHEADS lançava um petardo atrás do outro, provocando o frenesi saudável da moçada.

Paulo dando aquela força para Dudu - Syndicate 1993

Paulo dando aquela força para Dudu

Porém, o dono do local e os seguranças estavam numa vibração completamente oposta à dos roqueiros de cima ou de baixo do palco. Na sexta música (I Don´t Know Why) , do extenso set-list, os seguranças Pelé e Fabião (famosos lutadores de Vale-Tudo) empurraram com covardia o Serginho (irmão do Júlio) de cima do palco.

Foi o estopim para que os abusados Paulo e Júlio atacassem verbalmente os seguranças. O insano público se sentiu protegido, enquanto mais alguns compactos e camisetas dos Pinheads eram adquiridas por preços honestos. Na saída do palco, o clima ficou ruim. Será que os seguranças iriam tomar satisfações e partir para um não amistoso acerto de contas?

Vários rostos familiares em um pogo histórico no Syndicate

Vários rostos familiares em um pogo histórico no Syndicate

Nada aconteceu, felizmente. Paulo comenta a confusão:

“O Fabião era o maior batedor de Curitiba na época, campeão de chute boxe e o caralho a quatro. A fama de brutamontes do cara era enorme, apesar do fato de ele ter sido lobinho comigo no grupo escoteiro Tapejara, perto do Parque Barigui, nos anos 80. Escoteiros à parte, o cara realmente era muito grande e temido. No auge do stress do show do Syndicate, eu e o Júlio começamos a xingar os seguranças que estavam dando porrada na galera mais agitada do pogo. Desci a boca nos caras, e de repente senti um puxão na minha bermuda da Company, multicolorida, desejo de consumo de qualquer surfista no final dos anos 80.

Após arrebentar a minha bermuda, olho para ver quem puxou e vejo o tal Fabião que estava prestes a arrebentar minha cara. Chamei o cara (dá pra ouvir isso na gravação daquele show) meio que respeitando, pois ele estava junto com os seguranças. Na real, após o show, o cara acho que cansou de nos perseguir e foi buscar uma briga mais equilibrada pra ele naquela noite, pois, se quisesse, ia nos massacrar”.

22 Comentários

Arquivado em 1993

Final de 1993

Enquanto a poeira baixava, show em Londrina no Gran Mausoleo, dia 06 de novembro. A escalação de uma banda de rap com duas de hardcore dava a pista de que o público era meio skate. Tocaram ao lado dos rappers do Projeto Niggaz e levaram a tira colo os amigos do Slack Nipples. A nova banda do Renato, do Jack, do Tibério e do Gaudêncio tocava muito bem. Tinha uma boa aparelhagem, um belo repertório de músicas próprias e aquela velocidade e melodia a la NOFX e Dickies soava perfeita! Foi o primeiro show do Slack Nipples.

Pinheads em Londrina

João Gordo pediu para os produtores incluírem PINHEADS num show que aconteceria no Coliseu, em Curitiba, dia 12 de novembro. Iriam abrir o show dos Ratos de Porão, antes do black metal do grupo Infernal (curiosamente, que ensaiava na mesma Rua Vital Brasil, no bairro Vila Izabel, onde ficava a casa do Dudu, local de ensaios do PINHEADS).

O show no Coliseu acabou não acontecendo, pois o local não tinha alvará. Metaleiros revoltados apedrejaram o local após a notícia de cancelamento. Como o nome PINHEADS não estava no cartaz (pois tinham sido incluídos na última hora) o cancelamento não teve nenhuma conseqüência maior.

Recorte do jornal Folha de Londrina

Recorte do jornal Folha de Londrina

Promovido pela Cruel Maniac, o primeiro A Chacina (14/11/93) foi realizado em Pontal do Sul, ao lado da mini-ramp da avenida principal. Gratuito, sucesso de público, com as bandas Intruders, Paincult e Resist Control. Foi a única vez no litoral paranaense. Paulo gostou de tocar para os seus amigos nativos de Shangri-La. Dudu gostou de ver Maguila, Franco e outros skatistas da Maha no meio do público. Mas os PINHEADS não se sentiam muito confortáveis naquele tipo de evento, no qual o deslumbrado DJ deixava tocando o cd do Pennywise Unknown Road no repeat ad infinitum.

O brilhante ano de 1993 encerrou com a segunda edição do festival BIG. Desta vez, os PINHEADS tocaram ao lado dos amigos do Beach Lizards, no mesmo dia em que foi ao ar o primeiro Hardcore: programa semanal na rádio Estação Primeira, apresentado e produzido pelo grande amigo Mauricião (e co-produzido pelos PINHEADS, principalmente Paulo).

O show deveria ocorrer no Coliseu, mas acabou se realizando no 92 mesmo. A escalação da noite de sábado, 11 de dezembro era: C.M.U. Down, Pinheads, Motorcycle Mamma, Beach Lizards e Garage Fuzz. Este último acabou não vindo, assim como os Raimundos não vieram uma semana depois, quando estavam escalados para o show de encerramento do BIG.

92 lotado, final de 93

92 lotado, final de 93

Na eleição Melhores de 93 da seção Acordes, do caderno de cultura da Gazeta do Povo, Abonico Rycardo Smith, escreveu:

“Quem viu apenas um dos muitos shows deles no ano passado não tem dúvida: deu Pinheads na cabeça. Júlio, Paulo e Duda levam o público ao limite da animalidade seguindo a velha (mas completamente funcional) fórmula do punk angeleno: músicas curtas, rapidez, três ou quatro acordes, excelentes melodias e letras curtas e grossas. O hipnotismo é tanto que já virou comum haver gente mergulhando na platéia de quase cinco metros de altura (uns, inclusive, chegaram a usar muletas dias depois). Não bastasse arrebentar ao vivo, os caras ainda são os responsáveis pela maior vendagem do ano entre os discos produzidos por aqui. Por isso, com toda razão, os cabeças de alfinete paparam fácil as categorias banda, disco, música e show, além de…”.

5 Comentários

Arquivado em 1993

Onde está o silver tape?

Os PINHEADS não se iludiam com elogios da imprensa. Os jornalistas – em sua maioria – eram leigos no assunto punk/hardcore, noticiavam o óbvio ou apenas modificavam e reciclavam releases. Mais valia um comentário sincero de um amigo roqueiro ou uma crítica construtiva de um membro de alguma banda que eles gostavam.

Por outro lado, sabiam que os poucos e bons elogios, traziam novos ouvidos atentos para incrementar seu crescente público. Entendiam que se comparassem a música que estavam fazendo com bandas pioneiras do gênero (Circle Jerks, Adolescents, Dag Nasty) ficariam anos-luz atrás na produção, qualidade de gravação, técnica, maturidade, etc. Porém, também sabiam que estavam fazendo o possível com os parcos recursos que tinham e, principalmente, amavam o estilo musical que tocavam.

Mas para alguns moleques curitibanos, aquele tipo de punk/hardcore era uma novidade e tanto! Muitos moleques foram a um show pela primeira vez num show dos PINHEADS. Muitos moleques ouviram o compacto For Fun antes de ouvir Suffer, do Bad Religion, ou My Brain Hurts, do Screeching Weasel. A garotada só tinha visto stage dives e rodas de pogo em fitas VHS mal gravadas. Foi em algum show dos PINHEADS, no 92 Graus, que eles interagiram com banda e público de forma tão intensa pela primeira vez.

92 Graus: o C.B.G.B. curitibano

92 Graus: o C.B.G.B. curitibano

O norte do Paraná foi mais uma vez visitado, desta vez, Maringá. Tocaram na Universidade Estadual em um evento anarco-punk idealizado pelo gente boa Mamá. Pouco divulgado, o show valeu apenas para que não esquecessem de que antes de mais nada eram punk rock. Em nenhum show fora de Curitiba a banda dormiu em um hotel. Sempre em casa de amigos, rodoviárias ou no próprio local do evento.

Punks na U.E.M.

Punks na U.E.M.

O ano de 1994 começou para valer. O trio tinha mais de dez músicas novas e pintou uma oferta de gravação de uma fita demo. JR. Ferreira conseguiu, gratuitamente, várias horas no estúdio Solid Sound. As instalações eram extremamente simples, uma mesa de som Tascam de 8 canais estava à disposição da banda. O problema é que ninguém sabia pilotar o novo equipamento com propriedade.

Nem mesmo o dono do local, o simpático Roni. Foi nesse espírito urgente que iniciaram a gravação de 16 músicas (13 novas e três “velhas”). As novas seguiam a mesma fórmula anterior: punk rock básico + hardcore melódico. Mas os PINHEADS estavam numa fase extremamente rápida. O galopante Dude usava pedal duplo, Paulo atropelava palavras e mesmo assim se fazia entender, Júlio estava com uma mão direita precisa e veloz.

Where´s The Silver Tape? foi gravada entre janeiro e fevereiro de 1994. O título foi uma idéia de Dudu, pois o trio usava silver tape para quase tudo: segurar microfones, pedal de bateria, emendar pele do bumbo, segurar alça do contra-baixo, fixar set list no amplificador, imobilizar pedestal no chão etc. Sem silver tape era bem possível que todos os equipamentos fossem para o chão. Por dois motivos: precariedade e, principalmente, pela agitação do público.

Uma música de Júlio era a primeira da nova demo: Oh! Ja!. Essa canção de boas vindas seria a primeria de (quase) todos os shows da banda dali pra frente. Os Ramones abriam seus shows com a instrumental Durango 95 e agora os PINHEADS também tinham a sua canção abre-alas. Uma música com apenas Oh! Ja! (em alemão se pronuncia: ou iá!) como vocal. Bom para os técnicos irem ajustando o som antes de começar a porradaria. As próximas três músicas da segunda demo curiosamente começavam com Hey Hey You ou Hey Hey Dude.

Eram três letras do Paulo: Mixture Of Ideas, Skate Session e I´m Not a Nerd. A primeira falava sobre um tipo bem estranho que freqüentava o bar favorito do trio na época, o bar do Joe. O figura usava um cavanhaque enorme, se vestia de forma estilosa, porém bizarra. O rapaz parecia estar sempre alterado e rolava a lenda urbana que ele mantinha relações sexuais com sua própria irmã, uma outra doida famosa por conversar com anjos, abelhas e arco-íris nos intervalos da PUC. Era uma letra anti-drogas:

“Hey, hey you, I´ve seen observing you from ages/ The way that you behave simply called my attention/ The way you dress, there´s no reason why/ It seems you´re confused and nothing makes you happy – Tell me: Are you feeling something strange? Or maybe you´re planning a revenge/ It seems you´re affected by a mixture of ideas. I can help you with that – You´re always alone, Don´t you have some friends?/ There will always be someone who understands your way of thinking/ Stop the madness, never more use drugs/ You don´t need this stuff to be a happy person”.

Skate Session narrava mais uma daquelas noites na qual é bem melhor andar de skate na pista do Gaúcho (ao lado do Cemitério Municipal) do que ir pros bares da cidade:

“Hey hey Dude, call the guys, let´s go out tonight, get your skateboards put them in the car (ok!)/ The night of this city is getting worse and worse, let´s get drunk, forget about this bars/ Skate is a wonderful way-out, when there is nothing to do in this city, look at the bowl, there´s nobody there, prepare your adrenalin – Skate session tonight, I wanna a skate session tonight – Most of us are surfing, just going up and down, sliding on the walls/ This session is walking up the dead people in the huge sematary…”.

Letra de Skate Session escrita por Paulo

Letra de Skate Session escrita por Paulo

I’m Not a Nerd era uma das músicas prediletas do público. Pena que nesta versão, Dude errou feio no tempo. A letra era um desabafo do baixista/vocalista Paulo:

“Hey hey you, I´m not a nerd, I get drunk and go to shows/ I´m afraid of moron bros, C.J. fingers, tatooed toes/ I play bass for fun, but I don´t think that I´m the one/ I only say to you, I´m not a nerd…”.

Stupid Brains, The Basic Rock e Many-Side-Lad foram regravadas, desta vez, mais aceleradas e com vários backing vocals. Paulo era o principal letrista da banda e ainda escreveu Do It Yourself , No Public! No Show! e Luxury Bitches. Essa última, uma porrada de menos de um minuto, que começava com vocal e pregava o extermínio das putinhas de luxo da sociedade curitibana:

“The one you can´t imagine is the worst you can deal with/ Little darling in her house, rotten bitch in the night/ High hells and expensive clothes, the luxury bitches are here to look you. Ignore, my friend, they´re here to fuck with your brain/ But now dirty girl, I´ve got something for you, open your mouth and close your blue eyes/ No, bitch, no, it´s not my dick/ It´s the pipe of my huge 38, what great!/ The body´s on the floor, get her money, it´s her payment! – Exterminate, the luxury bitches!!! Society doesn´t need their entertainment!”.

A banda toda escreveu My Brother Is My Friend e Dude rabiscou Forget The Problems e Utopy. Paulo e Dude escreveram mais uma letra anti-drogas, Get Out Nasty!, e fizeram letras de amor, cada um à sua maneira.

Paulo dizia que “o inferno são os outros” em It´s Not My Fault:

“It´s not my fault if I have a mountain bike…, … if I hate birthday parties… …if I watch the Simpsons… …If I love to skate… …If your father doesn´t like me, it´s not my fault I can´t live without you… …why don´t you admit that you love this way, stop with this freshness and simply stay/ Explode this barrier, the system had put between us/ But when we´re alone in my house at the stones, I just can´t believe it´s the same girl I see. You´re turned into what I always wanted you to be”.

Já Dude, lamentava em I Don´t Know Why: “

You leave alone, there´s no reason why, you don´t look like a sanity person, I don´t know why I´m with you, maybe it´s the love blindness… …You leave ´cause I don´t know the coke´s formula. You leave ´cause I said hello to the Thursday Night Bikers, You leave ´cause I don´t believe in gnomos, You leave ´cause my favorite songs… Please tell me why!”.

Pinheads silver tape

A composição gráfica ficou a cargo de um inspirado Júlio. Todas as letras na íntegra, créditos e agradecimentos (thanks: all the Pinheads friends, all nice girls, all zines, Beach Lizards, Resist Control, João Gordo + RDP, Tube Screamers, I.M.L., Safari Hamburguers, Gangrena Gasosa, Slack Nipples, Boi Mamão, Paincult, Motorcycle Mamma, Missionários, C.M.U. Down, Os K´Bides, Alê and Pin Ups, Anões de Jardim, Magog, Cervejas e a galera do pogo. Special thanks: JR, Grilo, Maurício Gaudêncio, Armando, Fabiano, Nilo, Estúdio Solid Sound e Família Munhoz).

A demo trazia duas capas: um desenho tosco que Dude fez com um Pinhead dentro de um círculo e outra (idéia de Júlio, que mais tarde apareceu em capas de álbuns da banda ALL) com uma nota musical personalizada. Amigos de outras bandas deram uma passada no estúdio e, assim, Piupa, Roni e os Anões de Jardim, Alexandre e Frederico, fizeram guest vocals.

Uma quantidade considerável de gemas valiosas estava presente em Where´s The Silver Tape?, mas a gravação ficou ultra tosca. Paulo nunca tinha pilotado uma mesa de som e acabou ficando sob sua responsabilidade toda produção. Ele tirou leite de pedra, mas não adiantou muito. Na época, era raro uma banda independente lançar um material de excelente qualidade de som, mas esta segunda demo dos PINHEADS estava muito mal gravada. O excesso de graves, o vocal muito alto, o excesso de backing vocals mais o som sujo e embolado prejudicavam e muito o registro. Mesmo assim, resolveram lançar a demo.

PINHEADS começava o ano de 1994 com muita vontade e energia. No entanto, seus registros eram duas demo-tapes mal gravadas e um compacto 7 polegadas. Esse último, era o seu melhor cartão de visitas, porém ninguém mais escutava discos em vinil. Todo mundo só comprava e ouvia CD.

7 Comentários

Arquivado em 1994

Curitiba – São Paulo – Rio de Janeiro

Dois shows iniciaram a temporada dos PINHEADS nos palcos curitibanos. Um deles, totalmente lotado, no pequeno Mary Jane (18/03/1994). Abertura dos amigos Slack Nipples. Os covers da noite foram Gonna Find You, do Operation Ivy e We´re Only Gonna Die, do Bad Religion. Fizeram uma boa negociação com o dono do bar e até receberam porcentagem da bilheteria que resultou em um modesto, porém honesto cachê.

Set List do show no Mary Jane

Set List do show no Mary Jane

A agitação e lotação eram tão grandes que gotas de suor despencavam do teto. O amigo Alexandre Magrão (baterista dos Sarnentos e Sick Sick Sinners) recebeu uma cotovelada no pogo, e sua camiseta branca dos Sex Pistols ficou toda vermelha, manchada de sangue. Magrão não deu muita bola e continuou na roda. No final do show, a camiseta estava branquinha novamente! Neste dia, a galera do pogo tomou, literalmente, um banho de suor e energia.

Pinheads Hardcore_session

Palavras do Magrão: Cara, rolou um pogo nervoso daqueles de exorcisar a semana toda. Teve Slack Nipples antes. Aquele porão escorregadio pra caramba com as paredes suando e a gente se quebrando. Eu usava uma camiseta branca dos Sex Pistols, Never mind the Bollocks, quando tomei uma porrada no nariz e nem senti que estava sangrando. Quando percebi a camiseta estava vermelha de sangue, inteira de sangue na parte da frente.

Vi que havia parado de sangrar e continuei no pogo… e não é que o suor limpou a camiseta, cara!? Fiquei encharcado de suor, inteiro molhado. Saiu tudo, depois ficou meio amarelada.
Lembro que o show foi do caralho, muita energia, melhor show dos Pinheads pra mim.”

Pinheads Flyer_Aeroanta_Magog

O outro show foi o debut dos PINHEADS no Aeroanta de Curitiba, dia 30 de março. Tocaram com Magog, Falsa Doutrina e Resist Control. Foi uma boa estréia, local abarrotado, som bom. E perceberam que precisavam melhorar a performance em palcos maiores e mais audíveis. Nesse dia, um carro entrou no corredor de entrada do Aeroanta!! Um rapaz tinha sido expulso do local por truculentos seguranças e sua “irada” forma de protestar foi colidir violentamente seu Kadett prata na porta do estabelecimento.

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Dalí poucas semanas, o punk rock estaria nas MTV’s de todo mundo, com o estouro de Offspring e Green Day. No Brasil, uma banda parecia que ia estourar e, antes que isso acontecesse, JR. promoveu um show grande no Palácio de Cristal, no Círculo Militar. Na noite de 30 de abril de 1994, cinco bandas tocaram num palco de dois metros de altura: Intruders, Cervejas, Pinheads, Pin Ups e Raimundos.

Primeiro show dos Raimundos em Curitiba, um pouco antes de estourar

Primeiro show dos Raimundos em Curitiba, um pouco antes de estourar

Poucos meses depois, o rock pauleira dos Raimundos e do Planet Hemp estaria no mainstream. A maioria da molecada que iniciasse uma banda passaria a cantar em português. Depois da overdose de bandas nacionais nos anos 80, todas cantando na língua pátria, era perfeitamente natural para a geração do início dos anos 90 cantar em inglês. Sepultura cantava em inglês, Ratos de Porão acabava de lançar um disco em inglês e quase todas as bandas de punk/hardcore que apareciam seguiam pelo mesmo caminho.

Porém, a dificuldade para lançar um disco era enorme. Cantar em português era muito mais viável caso a sua idéia fosse “viver-de-roque”. Os PINHEADS não tinham nenhuma pretensão comercial, cantar em inglês foi uma escolha natural e essa estética não seria mudada.

Ensaios aos sábados na churrasqueira do Tio Zéca e da Tia Sula

Ensaios aos sábados na churrasqueira do Tio Zéca e da Tia Sula

A banda seguia a rotina de ensaios aos sábados e um show por mês. Os ensaios eram freqüentados por qualquer um que quisesse. Inclusive por bandas de outras cidades que vinham tocar em Curitiba, especialmente no 92. Uma das visitas mais toscas foi do insano grupo joinvilense The Power Of The Bira. Dizem que foram eles que disseminaram a expressão “Toca Raul!”.

Para não virar “arroz de festa”, os PINHEADS tentaram ficar um bom tempo sem tocar em “casa”. Resolveram também dar mais atenção à qualidade do som. Dudu comprou uma bateria Mapex, Júlio uma guitarra Ibanez clássica e um amplificador Marshall, e Paulo uns microfones bem bons. No meio do ano, foram ao estúdio Clean Sound e gravaram ao vivo cinco músicas novas, apenas para ver como iam ficar. Ficou melhor que a demo Where´s The Silver Tape?.

A Cruel Maniac estava lançando uma nova coleção de roupas e escalou PINHEADS (e Resist Control) para dar uma canja ao lado do estreante No Milk Today. Silly Bones (banda do estudante de publicidade Juliano Ribas) e OZ (de Brasília) também estavam agendadas para essa festa de lançamento no 92 Graus, dia 17 de junho. A canja era pra ser uma surpresa, mas os produtores fizeram até camiseta e cartaz do evento com o nome dos PINHEADS. Mesmo a contra gosto, o trio tocou. No meio do set, problemas elétricos acabaram com o show e com a paciência de todos.

Surpresa ao ver o nome da banda no cartaz!

Surpresa ao ver o nome da banda no cartaz!

Uma semana depois, na megalópole paulistana, tocaram no Urbania ao lado de White Frogs e I.M.L.. Local pequeno e interessante, principalmente por ter uma mini rampa de skate. Termômetro perto de zero grau (25/06/1994), público mediano e vários contatos. Um desses contatos foi com o grupo Cold Beans do skatista (e editor do fanzine Clean Sheets) Cesinha Lost.

Com um ano de atraso, finalmente tiveram o prazer de conhecer César Lost, responsável por colocar músicas dos PINHEADS nas primeiras edições em VHS dos vídeos de skate Silly Society. Lost ajudava Cristiano Mateus e Alê Vianna na produção dos Silly Society, e recheava a trilha sonora com muito punk/hardcore. Outro encontro se deu com Júnior, baixista do White Frogs. Ele tinha escrito uma Scene Report para a MAXIMUMROCKNROLL. O texto de meia página reportava a cena punk/hardcore brasileira do ano de 1993 e os PINHEADS tiveram uma foto publicada no fanzine mais  influente do punk americano.

Show com Pinheads, I.M.L. e White Frogs em S.P.

Show com Pinheads, I.M.L. e White Frogs em S.P.

No Rio de Janeiro, tocaram em um campeonato de skate (organizado pela marca HOMEY) dentro do Scala, tradicional casa de bailes de carnaval no Leblon. Camarim com cachorros quentes e muita água. Na frente do palco, na pista de dança, foi montada um espaço para street. Após o término do evento, imediatamente, se iniciou outro, com o funkeiro Latino. A má divulgação do campeonato não trouxe muitos frutos ao trio. Mas a já consolidada amizade com os Beach Lizards valia a viagem.

Laércio, Dudu, Cláudio, Paulo e Júlio

Laércio, Dudu, Cláudio, Paulo e Júlio

Não restritos ao lema “sexo, drogas e rock and roll” essas viagens eram, antes de tudo, uma celebração entre amigos. Um chopp no Baixo Gávea, vídeo do Damned na casa do Nervoso, surf em Grumari, almoço na casa do baixista Laércio e aquela frenética troca de informações roqueiras. Um Cock Sparrer e um The Boys pra lá. E Stiff Little Fingers e 999 pra cá. Paulo fala um pouco sobre isso:

Chegamos de manhã na rodoviária e fomos recepcionados pelo Danúbio Aguiar, zineiro e amigo. Dentro de um ônibus numerado em direção da zona sul, saindo da rodoviária, o Danúbio avista o Leonardo Panço, da banda Soutien Xiita e grita: “Panço, filho da mãe!” O motorista pára e entra o Panço no busão para nos acompanhar em direção ao show. Local? Boite Scala, de Chiquinho Recarey, atual símbolo da putaria gay carnavalesca da cidade maravilhosa.

Panço, Paulo, Danúbio, Júlio e Dudu. Água mineral no camarim do Scala

Panço, Paulo, Danúbio, Júlio e Dudu. Água mineral no camarim do Scala

Dude ficou feliz com a presença de um skatista das antigas chamado Cesinha Chaves, que filmava o campeonato para o programa Vibração. No final, chegaram nossos amigos do Beach Lizards e ficamos tomando conhaque e cerveja à tarde.

Turismo, amizade e punk rock no R.J.

Turismo, amizade e punk rock no RJ

À noite, numa tosqueira danada, fomos ao Canil Pub em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde todas as 10 pessoas presentes esperavam uma canja do Pinheads. A qual não aconteceu. Decepcionamos um alcoolizado Danúbio e fomos em direção a uma boite de Copacabana chamada Basement, ciceroneados por Nervoso e sua irriquieta namorada Bia. Muita sonzeira de qualidade num porão altamente promíscuo e tosco. A travesti Rogéria marcava presença nos arredores. Nem me lembro da volta, pois a amizade com os cariocas era tudo o que me interessava naquele momento. São amigos meus de sangue até hoje. Apesar de pouco nos falarmos. Pinheads era isso aí…”.

23 Comentários

Arquivado em 1994

Independência ou morte!

Por ser o compacto mais bem sucedido da Bloody, era natural que JR. Ferreira quisesse lançar um álbum dos PINHEADS. Mas produzir um compact disc independente no meio dos anos 90 era quase impossível.

O dono do Syndicate também comandava a rádio Estação Primeira (Mauricião e Paulo ainda faziam o programa Hardcore) e ofereceu o lançamento de um álbum inteiro dos PINHEADS. Um ano antes, o tal figura idealizou uma coletânea (Curitiba In Concert) com Slack Nipples, Paincult, Primal e Abaixo de Deus. As bandas Slack Nipples e Paincult desembolsaram uma grana suada para gravar no Estúdio Solo com a promessa de ser lançada a tal compilação. Fato que nunca ocorreu.

Os PINHEADS compraram a briga e rudemente questionaram o figura de como lançaria um álbum novo se não conseguia lançar o velho prometido. O figurão se enrolou, embolou o pé no ridículo e começou um monólogo cheio de gírias medonhas do mundo do róque. Percebendo a vergonha alheia no rosto dos PINHEADS, o “dono-da-gravadora-que-nunca-existiu” parou com a lenga-lenga e (ainda) achando que o jogo estava ganho, perguntou para a banda se aceitariam ou não a “genial” empreitada.

Com risco de riso nos lábios, o sempre direto e, às vezes, cínico Júlio, respondeu com um singelo: NÃO! A banda se retirou da reunião com frouxos de riso e com a certeza de que não seriam enganados pelo fanfarrão! Ledo engano.

Com um bom público nas costas era hora de ganhar uns trocados daqui pra frente. Afinal, queriam gravar, viajar e tocar em outras cidades do Brasil. Assim, negociaram mais um show no Syndicate (05/08/1994). Estranhamente, os donos do local aceitaram toda proposta da banda; que depois entendeu o porquê. A entrada seria de apenas dois reais, o grande espaço ficaria com lotação máxima, o dinheiro do bar era do local e um real da entrada era da banda. Júlio colocou seu tio na bilheteria e ninguém entrava sem deixar dois reais na porta de entrada.

Os PINHEADS pagaram passagens de ônibus para os amigos paulistanos dos Tube Screamers abrirem o show. Tinha tudo para dar certo. O local estava lotado. As bandas afiadas. Os seguranças avisados. O público animado. Mas os donos do local resolveram brincar com a paciência de todos. Estava armada a revanche do fanfarrão…  não iria deixar barato o abuso dos três moleques de semanas antes.

Num clima de “vamos queimar a cara desses abusadinhos”, só permitiram que os PINHEADS tocassem depois das duas horas da manhã (de uma sexta-feira) e a qualidade sonora era simplesmente ridícula. O pior equipamento de som que já tinham oferecido para o trio! Por mais que se esforçassem, era difícil agradar aos ouvidos da cansada platéia. Tube Screamers tocou Suffer, do Bad Religion, e Welcome to Paradise, do Green Day.

O cover da vez dos Pinheads era Basket Case, também do Green Day. Paulo, mais uma vez, resolveu abrir a boca, desta vez, com serenidade. Reclamou com razão de toda palhaçada promovida pelos donos do Syndicate:

“Vocês são uns idiotas. Semana passada veio tocar aqui uma banda de São Paulo chamada OKOTÔ e vocês ofereceram um som impecável para meia dúzia de pessoas na platéia. Agora vem uma banda local, trás um público legal, enche a casa e vocês retribuem a gentileza com um som e horário de merda! Muito obrigado! Mesmo“.

Paulo Kotze, baixista e vocalista dos Pinheads

Paulo Kotze, baixista e vocalista dos Pinheads

Certamente, os PINHEADS perderam uma pequena, porém consistente platéia após aquele show. Prometeram a si mesmos que nunca mais tocariam naquele local, que nunca mais negociariam com aqueles fanfarrões. O único saldo positivo foi que botaram mil pessoas para dentro, assim, mil reais entraram na caixinha da banda!

Flyer legal, equipamento lazarento

Flyer legal, equipamento lazarento

Em setembro de 1994, veio a segunda edição do famoso festival Juntatribo, em Campinas. A primeira edição revelou os Raimundos. Já a segunda não revelou ninguém! Tá certo que o Planet Hemp tocou lá e depois fez sucesso, mas o intento não foi devido àquele show. Como a maioria dos festivais “alternativos” da época, o Juntatribo errou ao escalar muitas bandas (29) e muitas tendências (tinha de tudo: rap, noise, metal, tecno, hardcore, industrial, pop, experimentalismo etc).

Em uma tenda de circo, um micropalco capenga foi montado no observatório a olho nu, o lugar mais alto da Unicamp. Muita terra, muito vento, muita fumaça e uma ducha de água fria. O Juntatribo serviu para aterrar qualquer sonho de vida fácil no underground tupiniquim. Mesmo com a presença da imprensa escrita e da MTV, o saldo do festival não foi tão positivo quanto se imagina.

Dava pra perceber que se as bandas não se valorizassem, seria difícil vislumbrar um futuro animador. Depender de produtores com um pé no chão e o outro na lua não era o objetivo de ninguém. No hardcore do festival destaque para o Garage Fuzz que mostrava um advanced do seu primeiro álbum.

Algumas bandas solidificaram laços de amizade no meio do perrengue (PINHEADS, Anarchy Solid Sound, Safari Hamburguers, Beach Lizards, I.M.L., No Class). Foi na segunda e última edição do Juntatribo que Dudu entregou alguns prometidos compactos para o entusiasmado Francesco Coppola. Dali para frente, o amigo Fran foi quem mais fotografou diferentes shows dos PINHEADS e sempre divulgava a banda pelos muitos cantos que percorria.

No Stupid Hardcore Slogans

No Stupid Hardcore Slogans

Num iluminado dia, os PINHEADS cancelaram o apoio que recebiam da Cruel Maniac. Não queriam e não precisavam vincular o nome da banda com uma surfwear. Estavam numa fase na qual uma camiseta básica branca, preta ou listrada, dizia muito mais do que estampas e logomarcas.

4 Comentários

Arquivado em 1994