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Início de 1995

O ano de 1995 começou apenas em fevereiro, com dois shows pelo interior de SP: Jundiaí e Santa Bárbara do Oeste. Em Jundiaí, os PINHEADS tocaram em um bar tosco chamado Blackout, com uma aparelhagem ruim e com um público pequeno, porém, com a presença de alguns interessados como o DJ Ary e uma banda de Americana que abriu o show, Tina Pepper.

Pinheads Blackout

Em SBO tocaram no dia seguinte, quatro de fevereiro, num sábado, juntamente com Tube Screamers e Mullekadas. O Hitchcok era um espaço clássico do interior de SP e era comandado pelos irmãos da banda Concreteness.

Muito calor em SBO

Muito calor em SBO

Neste show, um encalorado Júlio foi tirando camiseta, depois tênis e meia, depois ficou apenas de cueca samba-canção. Foi um bom show e valeu pelo público presente: Fran, Tatu, Carioca, ET e os Tube Screamers, que fizeram um dos últimos e melhores shows de sua história. Com os Tube Screamers a saudável troca de sons também era intensa. Marcelo Fusco, o baterista, era um aficcionado por bandas da gravadora SST.

Assim, os PINHEADS completavam a discografia de bandas como Descendents, Minutemen e Black Flag. Júlio e Luli voltaram para Curitiba, Dudu e Paulo foram para o RJ passar uma semana com Laércio, Nervoso, Demétrius e Cláudio, os Beach Lizards. Depois de quatro dias, Dudu voltou. Paulo ficou mais dois e junto com o Anarchy Solid Sound passou mais um final de semana na região de Santa Bárbara, Jundiaí e Americana!

Pinheads Hitchcock

Paulo respirava Medicina e punk rock e, aproveitando seus inúmeros contatos pelo Brasil, mais as maravilhas tecnológicas dos novos computadores da época, fez o Back Core, um fanzine de quatro páginas. O Back Core teve três edições e seu mote principal era a divulgação das boas bandas punks nacionais.

Filipeta de divulgação do zine

Filipeta de divulgação do zine

Phú, da banda brasiliense DFC, estava arquitetando um disco homenagem aos Ratos de Porão. Os PINHEADS foram convidados e escolheram a música Traidor. A música nunca foi gravada, pois o projeto ficou na geladeira e acabou sendo lançado apenas em 1998. Os Anões de Jardim e os Krápulas representaram Curitiba nesse tributo intitulado Traidô – 20 bandas tocando Ratos de Porão.

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Arquivado em 1995

The Cool Crowd

Uma segunda proposta para gravar um álbum veio com a gravadora Polvo. A falta de contato direto com aqueles cariocas monossilábicos era tão broxante quanto a oferta, pouco esclarecedora. O contrato capcioso dava a entender que os PINHEADS abriam mão de direitos autorais e firmava compromissos nebulosos. Menos sorte teve os curitibanos da banda amiga Uv Ray, que entraram no esquema da Polvo e nunca tiveram o prometido álbum lançado.

Saca só o depoimento do amigo, André Scheinkmann, guitarrista do UV RAY:

“Polvo foi um selo bizarro. Lançaram Dash, Big Trep, Beach Lizards e nós ficamos pra história. Eles bancaram 60 horas de gravação num estúdio na Glória, Rio de Janeiro, em janeiro de 1995. Em fevereiro passei no escritório do estúdio, que era em Copacabana, para assinar uma papelada de liberação de músicas e tal. Você bota fé que o diretor da gravadora , o tal do Marcelo, nem se deu o trabalho de sair da sala dele?!

Assinei os papéis com o assistente, e dava pra ver o cretino pelo vidro fosco de costas na cadeira, se achando o 007! Tínhamos falado inúmeras vezes por telefone numa boa, o cara se mostrando simpático e ‘amigo’… a partir de então saquei que a coisa não era séria. Gravamos, mixamos e masterizamos (naquele nível de qualidade da época), e os caras não lançaram. Pelo menos fizemos uma cópia numa DAT e trouxemos com a gente, de outro modo nem a gravação teríamos. Na época lembro de falar com o Paulo. A Polvo tinha feito uma proposta para os Pinheads e ele veio trocar uma idéia comigo. Dei a letra do que tinha rolado, mas ele já tinha sacado que o cabra era pilantra”.

Entre os melhores da história de ambas

Entre os melhores da história de ambas

No dia 11 de março, Beach Lizards e PINHEADS lotaram o Aeroanta. Sempre dando suporte para a platéia, a verdadeira estrela dos shows, a banda fez um set equilibradíssimo, incluindo as novas Try! e Friendly Song. Jogaram as bolas de plástico (para o desespero dos donos do local) e o cover da noite foi Salvation, do Rancid. Karina, da banda No Class, tocou baixo na música Plutoflipper’s Land. Segundo o baixista Laércio, foi o melhor show da história dos Beach Lizards; e certamente um dos top 3 dos PINHEADS. A platéia era basicamente composta de gente amiga.

A roqueira mezzo-curitibana mezzo-paulistana Inti, relembra:

“Foi inesquecível Pinheads e Beach Lizards no Aeroanta. Lembro bem que eu e a Karina do No Class, estávamos assistindo ao show atrás do palco e aí a gente não se aguentou e saiu correndo junto lá de trás, as duas ao mesmo tempo e pulamos na galera. Foi um stage dive histórico!! O Tatu e o Fralda nos seguraram, senão… Detalhe: nós duas estávamos de saia… Bons tempos! “.

Pinheads Set_list_Lizards_1Pinheads Set_list_Lizards_2

Logo após o show de abertura dos Beach Lizards, um rapaz pediu para ficar em cima do palco durante todo o show dos PINHEADS. Com o maior prazer, o trio reservou um lugar privilegiado para o fã, um cadeirante portador de deficiência motora nos membros inferiores. Animado, sorridente e cantando junto, o rapaz era um show à parte. O ápice foi quando o tiraram de sua cadeira de rodas e simplesmente o jogaram no crowd surfing.

O rapaz fluía nas mãos do público, todos se esmerando em não deixar que nada de errado pudesse acontecer. Um minuto depois, eufórico, estava de volta à sua cadeira de rodas. Dudu, Paulo e Júlio fingiam que nada estava acontecendo, mas no fundo de seus corações, vibravam e sentiam orgulho de seu público.

Pinheads, 11 de março de 1995, Aeroanta

Pinheads, 11 de março de 1995, Aeroanta

Um dia antes, o Caderno G da Gazeta fez uma matéria divulgando o show com os Beach Lizards, no Aeroanta. O texto de meia página dizia que o trio já estava de contrato assinado com o selo Polvo. Sedento por noticia, o jornalista acabou forçando a barra. De fato, a Polvo chegou a enviar pelo correio o contrato de um álbum. Mas Paulo simplesmente o rasgou e jogou no lixo de sua casa.

Pinheads Flyer Circo_voador

Em plena sexta-feira santa da Páscoa de 1995, os cariocas retribuíram a gentileza: PINHEADS, Cabeça, Funk Fuckers (com B Negão) e Beach Lizards tocaram no lendário Circo Voador, no boêmio bairro da Lapa.

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Hand In Head

Era hora de gravar as novas músicas. Doze petardos foram compostos desde Silver Tape. Tinham uma grana contada, que cobriu o custo para gravar, em dois dias, no Estúdio Solo. E ainda pagou quatro passagens de ônibus (duas de ida e duas de volta) para João Gordo. O vocalista dos Ratos de Porão tinha uma boa relação com os PINHEADS e, sempre que aparecia em Curitiba, recebia uma visita, uma camiseta ou a gravação em cassete de um novo álbum do D.I.

Numa dessas vezes, João Gordo recebeu a gravação ao vivo que tinha sido feita no meio de 94, com cinco músicas novas. E aceitou o convite para produzir o novo material. João não cobrou nada e sem nenhuma frescura dormiu por duas noites em um quarto improvisado na casa do Mauricião. O vocalista da banda punk mais famosa do Brasil mostrava um ecletismo impressionante no seu case de CD’s: música eletrônica, thrash metal, Racionais Mc’s, Smash do Offspring e o álbum azul do Weezer.

No estúdio, João se preocupou, primeiramente, com o fundamental: afinação, equalização, timbres. Dispensou uma mesa digital e preferiu trabalhar em uma analógica. Vetou o uso do contra baixo empenado do Paulo. Segundo Gordo, o instrumento de quatro cordas mais parecia um berimbau! O auto intitulado quarto pinhead Mauricião, teve que sair correndo para catar no Guabirotuba seu singelo, porém decente, contra-baixo.

Depois, Gordo jogou a responsabilidade para os três PINHEADS. Victor França foi o engenheiro de som. O trio estava mais veloz do que nunca e a maioria das músicas já tinha sido bem testada em cima dos palcos. A gravação e mixagem ocorreram nas noites do dia 31 de março e no Dia da Mentira. Estavam muito bem ensaiados, mas o tempo era curto. O esquema de gravação foi bem simples: bateria e baixo, uma guitarra, depois outra, vocal principal e backing vocals.

João Gordo dava poucos palpites, mas a sua presença aumentava a responsabilidade de todos. Paulo e Júlio fizeram backing vocals e os amigos Mauricião e Alexandre (dos Anões de Jardim) também deram seus gritos. Alguns erros acabaram ficando (principalmente de Dude, em Slowmotion), mas João Gordo tranqüilizava com frases do tipo: “Deixa assim… pureza punk”. Quando alguém errava, o outro também relevava: “Agora já foi… a tosqueira governa”.

As doze músicas mostravam um hardcore veloz e belas melodias. O som estava mais pesado e as músicas menos óbvias. Três quartos das músicas eram porradas de até dois minutos. A veia punk rock latejava em algumas faixas e estourava em It’s In Your Hands e Slowmotion.

Júlio ficou encarregado da concepção gráfica. Mauricião transcreveu as letras de próprio punho. Os zineiros Raí e Luís Junior colaboraram com o desenho da capa. Dude, como sempre, elaborou a ordem das músicas. Inspirado pela capa do primeiro álbum do Down By Law, Paulo deu o título: Hand in Head. “Mão dentro da cabeça” remetia à alguém levando a mão à cabeça diante de alguma emoção positiva ou negativa.

Pinheads capa Hand_in_head

Durante a composição das músicas de Hand In Head, Dude, Paulo e Júlio se entendiam apenas com um olhar, um sorriso ou uma cara feia. As músicas vinham naturalmente, os arranjos, as paradinhas, as finalizações. A idéia de um se encaixava na do outro. Tudo fluía naturalmente. Era um prazer ensaiar, fazer música e escrever letras.

Pinheads capa_Hand_in_head principal

Irritantemente apaixonados por música, mas um pouco iconoclastas, Júlio, Paulo e Dude tinham, cada um, suas obras musicais favoritas, e sabiam que seria proveitoso pesquisar e descobrir as origens e as fontes. Quanto mais informação, mais entendimento e menos mitificação. Isso de forma alguma desvalorizaria suas predileções, a não ser que o álbum (ou banda) não fosse verdadeiro e não tivesse personalidade e forma própria.

Os PINHEADS gostavam de quase tudo relacionado a punk rock e hardcore. Amavam Hüsker Dü tanto quanto amavam Dag Nasty ou Bad Religion. Curtiam Ramones tanto quanto The Clash e The Damned. Gostavam igualmente de Pennywise, Sick Of It All, G.B.H ou Subhumans. Queriam ter escrito alguma música dos Beach Lizards, dos Muzzarelas, do Slack Nipples, dos Inocentes, dos Ratos ou do Primal Therapy .

Mas em Hand In Head, os PINHEADS estavam fazendo apenas e exatamente o que eles sabiam fazer: um feijão com arroz bem apimentado. Compensavam suas limitações técnicas com velocidade e energia. Das 12 músicas, apenas duas tinham mais de dois minutos! Na mixagem, João Gordo sugeriu deixar o volume do vocal “um cabelinho” mais baixo do que o normal. Foi uma idéia acatada.

Assim, não jogavam tanta responsabilidade na esforçada voz de Paulo e destacava-se o que era mais relevante: a sonoridade, o punch e a dinâmica das músicas. Paulo escreveu muitas músicas, Júlio mais da metade e, no final, até o baterista Dude poderia receber um pouco de crédito. Quarenta por cento das letras foram compostas por Paulo, trinta por cento por Dude e o trinta por cento restante era uma dobradinha Paulo/Dude.

Encarte com créditos e letras

Encarte com créditos e letras

De autoria de Paulo, Friendly Song abriu o registro. Sonoridade Nofx e letra mostrando que a música, muitas vezes, pode ser como o cão, o melhor amigo do homem. Na letra, uma homenagem à banda amiga Dreadfull:

“It´s more than friendly, son/ It´s in the corner of your room/ Listening to Dreadfull/ Loud in your headphones…”.

Palavras de Paulo: “Compus sentado em casa em 10 minutos num papo com o Seixas… a letra saiu em 5 minutos”.

Take a Decision, música composta por Júlio, trouxe a primeira dissonância no som da banda. A letra foi composta por Dude, dia 25 de dezembro de 1994, após uma cerveja na casa do supra-citado Seixas. Dilemas amorosos em datas comemorativas castigavam o indeciso e adolescente baterista. Traduzindo, dizia:

“É bom conversar com pessoas interessantes/Escutando músicas que lembram romances/Bebendo latas de 300 ml’s/Pensando com os olhos lá longe/ Amanhã, sei que ela pode não ser mais minha/ Mas, desculpa, tenho muitas dúvidas”.

A terceira música de Hand In Head era Worth It?. Inteiramente composta por Paulo, uma das melhores, mais furiosas e rápidas dos PINHEADS. Paulo escreveu a letra em homenagem ao recém-falecido colega Aderbal.

It’s In Your Hands: mais uma música de Júlio, com letra de Dude. Inspirado em Bill Stevenson, Dude resolveu escrever (no dia do seu aniversário de 20 anos) a letra de amor mais escancarada dos PINHEADS.

Somebody Help Me: música de Júlio e Paulo. Letra: Paulo. Uma das agressivas que mais funcionavam nos shows. O hardcore mais direto e certeiro do grupo.

A demo chegava na metade com uma música 100% Paulo: We Still Have Time. Paulo não queria compromisso finalizando com “Give me some reasons to link me, I know it´s good, but I can do it 10 years later, I give a shit to what they think!, Beer still speaks louder than you do”.  Dez anos depois, ele faz o mea-culpa: “Não queria namorar, somente curtir e deixar as coisas como estavam. Mas fui muito estúpido nessas horas, tratava mal algumas mulheres”.

Try!: música de Júlio e letra de Paulo. Começava com guitarra bem ao estilo do guitarrista e logo vinha a porrada costumeira. Para quebrar o clima, Júlio (fascinado por Operation Ivy na época) tratou de colocar um skazinho bem simples e Paulo finalizava com vocal falado e distorcido inspirado em Dave Smalley, na música Punk As Fuck, do Down By Law.

Júlio também estava inundado por No Fun At All e compôs Destination Zero. Dude e Paulo trataram de fazer a letra. O sing-along Oooh Eooooh Eoh no final era uníssono em shows de 1995. Dude intitulou a música homenageando uma banda alemã (projeto de membros do Razzia e do Slime) de mesmo nome.

Can You Hear Me? também era música Júlio + letra Dude e Paulo. Desespero e agressividade por todos os lados: letra, baixo sozinho na paradinha, início caótico da bateria etc.

O contraponto veio com Slowmotion, uma canção mais roqueira, mais lenta, com guitarras elaboradas e backing vocals. Mais uma música do inspirado Júlio e mais uma letra de Dude. O baterista se desculpava por mais uma letra desanimadora. Na tradução:

“Me desculpe, você não tem nada a ver com isso/ Só quer diversão e eu aqui… jorrando minhas dúvidas em seus ouvidos/ É que música tem sido meu único refúgio, mas você tem sido o único alvo/ Então se importe apenas com o som ao redor de sua cabeça”. No refrão, Paulo alternava sotaque estado-unidense e britânico em “last” e “fast”.

Today Is The Day: música Paulo, letra Dude. Hardcore em todos os sentidos. Velocidade, agressividade, letra indignada.

Dude sempre quis uma música dos PINHEADS começando com vocal bem ao estilo dos australianos do Hard-Ons. Infelizmente, a única que tinham nesse naipe era Luxury Bitches. Por isso, Dude sugeriu ao vocalista Paulo que começasse Face the World berrando o título da música. Não era exatamente um lance Hard-Ons, mas ficou legal. A fita demo acabava com uma faixa escrita pelos três. Letra positiva e encorajadora. No final de Face The World a característica melodiosa do trio amaciava os ouvidos após os doze petardos de Hand In Head.

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“Larga o piá, larga o piá”

No domingo seguinte, dia nove de abril, juntamente com os Anões de Jardim, os PINHEADS abriram para os Ratos de Porão. O show foi no Aeroanta e tocaram apenas Hand In Head de cabo a rabo, sem nenhum erro. Não iniciaram com a tradicional Oh Ja!, mas com Friendly Song. Foi uma atrás da outra, sem diálogos, comentários ou agradecimentos, até encerrar com Face The World.

Três bandas de hardcore

Três bandas de hardcore

A divulgação de fitas demo era complicada. Cada integrante gravava muitas cópias em sua casa ou em outro aparelho duplo tape deck na casa de amigos. Desnecessário dizer que as gravações ficavam diferentes. Algumas mais graves, outras mais agudas. Algumas boas, outras ruins. A qualidade também dependia da fita cassete: nacional ou importada, normal ou cromo. Hand in Head era distribuída gratuitamente, de mão em mão. E pelos Correios do Brasil era despachada para fanzines, distribuidoras, amigos e pequenas gravadoras.

Dudu Munhoz, baterista dos Pinheads

Dudu Munhoz, baterista dos Pinheads

Com a nova demo tape, estavam prontos para subir em cima dos palcos. Em maio, aproveitaram uma boa oferta que apareceu e alugaram uma van para a próxima empreitada: show em Ponta Grossa. Mais uma vez, numa festa de campeonato de skate, desta vez organizada pelo Teco da Maha Street Wear. O insano campineiro Tatu esfumaçou o veículo, Trajano e Serginho (irmão do Júlio) também se juntaram à turma.

Foi um show competente no novíssimo Aeroanta de PG, juntamente com o Confusion Oba! e Ex-Lax. Era o segundo show dos amigos do Ex-Lax, que faziam um bubblegum inspirado em Screeching Weasel. Eles logo lançariam a primeira demo (Cabongue), na qual Paulo fez backing vocals em duas faixas. O Confusion tinha apenas três músicas próprias e recheava seu repertório com covers bem tocados de bandas como Ramones, Operation Ivy, Nofx, Bad Religion e Green Day.

Sobre o show do PINHEADS, Marcelo Vieira lembra: “Parei um show do Pinheads em Ponta Grossa. Subi no palco pra dar um stage dive e os seguranças me pegaram pra jogar pra fora. Vendo isso, o Paulo gritava no microfone “Larga o piá, larga o piá!!!”  e o Júlio jogou a guitarra no chão e saiu dando porrada nos seguranças. Divertidíssimo. Naquela época era crime pogar e dar mosh em lugares como o Aeroanta de Ponta Grossa”.

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You Can Trie

Numa quarta feira do mês de junho (14/06/95), PINHEADS, Ex-Lax e Muzzarelas tocaram no Aeroanta de Curitiba. O Caderno G da Gazeta do Povo continuava divulgando as bandas locais, e numa das edições promoveu um debate pouco consistente sobre bandas covers versus bandas autorais.

A discussão girava em torno da Relespública que, para se manter na ativa, precisava fazer shows tocando versões de The Who, The Animals e outras bandas famosas, em detrimento do seu próprio repertório. A Relespública, logicamente, preferia tocar apenas músicas próprias, mas o público curitibano tinha uma imensa tradição de bandas cover. Talvez aí se explique um pouco do porquê Curitiba nunca ter tido uma banda no primeiro escalão do rock nacional.

Nos anos 90, a única banda curitibana que se aproximou do mainstream foi o Senhor Banana. O pop inofensivo do quinteto era um projeto artificial, uma união de vários integrantes de outras bandas covers da cidade. Não tinha espontaneidade e, naturalmente, não deu certo. Sua “maior conquista” foi um show na Jamaica e ser o vencedor do Primeiro Rock Gol da MTV.

Sem querer se aprofundar na irrelevante discussão (por entenderem que o vilão da história era o próprio público curitibano), os PINHEADS preferiram confundir, e assim, mais uma vez não iniciaram o show com Oh Ja!, mas com um cover, Beat Me Senseless, dos Circle Jerks.

"Everyone´s jumping and stage diving, the mikes are on the floor..."

"Everyone´s jumping and stage diving, the mikes are on the floor..."

O trio estava numa fase intensa de dois ou três shows por mês. Eram apresentações longas e cheias de energia. Gatorade era obrigatório. Perdiam cerca de um quilo por show. O pouco dinheiro que ganhavam, utilizavam para custear viagens para shows fora de Curitiba ou para gravar novas músicas no futuro.

Na noite chuvosa de 24 de junho de 1995, os PINHEADS, pela primeira e única vez, abriram o show de uma banda internacional. Foram escalados para tocar antes dos TOY DOLLS. O trio inglês era uma das bandas favoritas dos caboclos, principalmente, de Paulo (que tinha todos os CDs das bonecas de brinquedo) e de Júlio (que tinha várias camisetas e quase todos os vinis). Foi uma honra abrir para uma banda tão clássica e de tanta qualidade.

O trio liderado pelo gentleman Olga fez uma apresentação histórica. Aeroanta super lotado, com público sedento por punk rock. Os poucos shows punk gringo na terra dos pinheirais tinham sido New Model Army (no Coliseu), The Exploited (no Aeroanta no dia 31/03/1993), Fugazi (no 92 Degrees)  e Ramones na Pedreira. Era a turnê do álbum Orcastrated e o nome da banda era com “z”: Toy Dollz.

Flyer: Toy Dolls com "S", sem nome da banda de abertura e sem preço do ingresso.

Flyer: Toy Dolls com "S", sem nome da banda de abertura e sem preço do ingresso.

Os PINHEADS fizeram um show curto, com apenas 10 músicas, em um set list mais punk rock do que hardcore. A bateria de Dude ficou na linha de frente, posicionada entre Paulo e Júlio. Punks ortodoxos xingavam e cuspiam no trio curitibano. Fato que apenas os deixavam mais concentrados e precisos.

You can try

You can try

Na hora do cover da noite, os punks ortodoxos se espantaram com uma versão fiel de You Can Try, dos suécos Rescues In Future. A música era uma das melhores do clássico vinil duplo The Vikings are Coming. Não teve como. Os punks se renderam, pogaram, cantaram e até aplaudiram o trio de “playboys curitibanos”.

O primeiro semestre de 95 foi o semestre com o maior número de shows e viagens. Um mês de descanso era mais do que necessário.

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Baixada Santista

O próximo show foi em Santos. Depois de um mês de inatividade, ensaiaram um dia antes. Ensaio curto para trabalhar uma música nova (Wish You Go Away) e um cover (Let´s Lynch The Landlord). Aproveitaram o esquema barato da van e pegaram a estrada se nutrindo de conhaque e cigarro de cravo. Tocaram num teatro (sem palco, com arquibancada lateral) com o Primal Therapy. Na platéia, amigos ilustres como Boka e Marcelo Fusco.

Pinheads Primal_Therapy

O mês de férias e os abusos etílicos durante a desgastante viagem não fizeram bem ao trio. Velocidade era uma das qualidades da banda e, neste show, não estavam em forma. Baquetas escapavam das mãos de Dude várias vezes, e Boka (baterista dos Ratos de Porão), posteriormente, alertou que baterista de hardcore não podia perder a forma nunca. Também comentou que já tinha assistido o PINHEADS tocar muito melhor do que naquela noite. A música nova e o cover dos Dead Kennedys não estavam muito afiados e o show realmente não foi dos melhores!

Os PINHEADS compensavam suas limitações técnicas com velocidade e movimento. O frenesi do público também era um trunfo. Neste show em Santos, a banda estava debilitada e o público estava lá mais para conferir do que para agitar.

Pinheads em Santos, 1995

Pinheads em Santos, 1995

Mas todo show tinha seu lado positivo. Marcelo Viegas, editor da CemporcentoSKATE Magazine, relata:

O único e memorável show do Pinheads que eu assisti foi aquele de Santos, com o Primal Therapy, dentro do Projeto Arena do Rock. Lembro a data: 05 de agosto de 1995. Não que minha memória seja exemplar, é que escrevi sobre esse show para o meu extinto fanzine, The Answer.

Eu já tinha a demo ‘Hand in Head’ e estava ansioso para conferir ao vivo aquelas pauladas melódicas. Fui pra Santos com o Fernando e o Mutz, do Cold Beans, no Chevette verde metálico do Mutz. Como o intercâmbio de bandas não era muito comum naquele tempo, lembro que uma galera de SP se locomoveu pra Santos. Basicamente as pessoas que tinham bandas, como IML, Lack of Reason, Hatred, Nitrominds e tinha até alguém do Barneys.

Isso sem contar a galera das bandas locais: Popping Tits, White Frogs, etc… Aquele show tornou-se um evento de confraternização e troca de idéias, entre pessoas que se comunicavam basicamente por cartas. Afinal, era uma época pré-Internet. O Primal Therapy abriu a noite e fez um ótimo show, como já era esperado.

E então veio o Pinheads, com uma apresentação que fez jus a fama do power trio curitibano, considerado na época uma das melhores bandas de hardcore melódico do Brasil. Júlio, Dudu e Paulo estavam entrosados e empolgados, tocando de maneira firme e conquistando o público presente. Tocaram várias músicas da demo, como “Friendly Song” e “Somebody Help Me”, mas a minha favorita ficou de fora (“It´s in your Hands”), o que me deixou levemente decepcionado…

Quer dizer, eu acho que devo ter ficado um pouco decepcionado, mas não foi nada significativo, pois o show foi bom no geral. Teve até um cover do DK no setlist. Voltamos pra SP felizes e ainda mais fãs da banda. Tínhamos visto o show de uma banda no auge da forma, se bem que é estranho dizer isso de uma banda que teve uma trajetória tão curta. Hoje sou amigo do Dudu, e ainda tenho minha fita demo, os zines nos quais escrevi sobre a banda e a lembrança de uma noite juvenil, quente e memorável na baixada santista.”

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I’m a Cliché

Após um primeiro semestre intenso, os PINHEADS resolveram descansar os seus ouvidos e os do público. Fazer silêncio para depurar o verdadeiro som. O hiato era realmente necessário. Respiravam música. Letras e acordes significavam tudo. Vida social e shows de rock formavam a simbiose perfeita. Mas chegava a hora de dar uma descansada.

Os três PINHEADS precisavam ficar um tempo sem se ver em ensaios e viagens. Continuavam se encontrando, afinal, eram amigos, mas era preciso respirar novos ares. Além disso, o hardcore no Brasil estava ficando popular. Em Curitiba, bandas independentes eram requisitadas para tocar em festas de turmas de faculdade. Eram as festas mais disputadas do Aeroanta. A coisa estava ficando clichê.

Nas quartas feiras, eram agendados eventos com bandas “alternativas” e, até mesmo, com uma espécie de banda de “hardcore cover”. Eram festas “do surf” com bandas, telões, filmes de esportes radicais e universitários perfumados e ávidos pelo agito da night. Os PINHEADS raramente freqüentavam e tocaram apenas uma vez numa dessas festas (Pinheads, Ex Lax e Muzzarelas).

"I just don´t want to hang out at night/ I´m feelin´”fell so bad”"

"I just don´t want to hang out at night/ I´m feelin´”fell so bad”"

O hiper-ativo Paulo aproveitou o descanso da banda e, juntamente com Mauricião, começou a pensar em um combo de ska. A banda foi idealizada por Mauricião, Paulo e Rodrigo Cerqueira, durante um show do Chico Science no Aeroanta. Embriagados de cuba, deram o nome à banda naquela mesma noite, Skuba. Mas só iniciaram os ensaios no final de 1995.

O primeiro guitarrista foi Nilo, do Boi Mamão. Destaque para o baterista Cerqueira, um aficcionado por ska. Viveu na Europa e nos Estados Unidos, em 1991 entrou no Easy Big Fella (primeiro grupo de Seattle dedicado ao ska) e gravou o primeiro álbum, Easy Listening. Em 1993, de volta ao Brasil, conheceu os produtores do HARDCORE (Mauricião e os PINHEADS), pois produzia o programa Skaface na mesma rádio.

Cerqueira se preocupava em incluir metais, e arquitetava todos os detalhes jamaicanos do Skuba. Paulo era o compositor de todas as músicas e Mauricião colaborava com as letras. Ensaiavam esporadicamente e fariam seu primeiro show apenas no ano seguinte.

Pinheadz + Barneys

Pinheadz + Barneys

Após cem dias de hiato, os PINHEADS só foram se apresentar novamente, no Aeroanta no dia 09 de novembro, numa quinta-feira (afinal, sextas e sábados estavam reservados para shows internacionais ou festas de faculdade, nas quais o grupo não tocava). Neste show, convidaram a banda carioca Barneys. Robério (ex-Anarchy Solid Sound) era o baterista deste grupo altamente influenciado pelo Bad Religion.

Tinham um vocalista excelente e um apelo pop-punk interessante. Nos cartazes e flyers de divulgação do show, os PINHEADS pediram para que o nome do trio fosse grafado com “z” no final. Era uma homenagem aos Toy Dollz. O trio não tocou nenhum cover e experimentou músicas que não tocava há tempos. Foi um ótimo show de ambas as bandas. Uns 700 pagantes. Mas o que o trio queria mesmo era gravar algo em CD. Não eram uma banda do tipo “caça-gravadoras”, porém, era nisso que se concentrariam no restante do ano de 1995 e no início de 1996.

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