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Onde está o silver tape?

Os PINHEADS não se iludiam com elogios da imprensa. Os jornalistas – em sua maioria – eram leigos no assunto punk/hardcore, noticiavam o óbvio ou apenas modificavam e reciclavam releases. Mais valia um comentário sincero de um amigo roqueiro ou uma crítica construtiva de um membro de alguma banda que eles gostavam.

Por outro lado, sabiam que os poucos e bons elogios, traziam novos ouvidos atentos para incrementar seu crescente público. Entendiam que se comparassem a música que estavam fazendo com bandas pioneiras do gênero (Circle Jerks, Adolescents, Dag Nasty) ficariam anos-luz atrás na produção, qualidade de gravação, técnica, maturidade, etc. Porém, também sabiam que estavam fazendo o possível com os parcos recursos que tinham e, principalmente, amavam o estilo musical que tocavam.

Mas para alguns moleques curitibanos, aquele tipo de punk/hardcore era uma novidade e tanto! Muitos moleques foram a um show pela primeira vez num show dos PINHEADS. Muitos moleques ouviram o compacto For Fun antes de ouvir Suffer, do Bad Religion, ou My Brain Hurts, do Screeching Weasel. A garotada só tinha visto stage dives e rodas de pogo em fitas VHS mal gravadas. Foi em algum show dos PINHEADS, no 92 Graus, que eles interagiram com banda e público de forma tão intensa pela primeira vez.

92 Graus: o C.B.G.B. curitibano

92 Graus: o C.B.G.B. curitibano

O norte do Paraná foi mais uma vez visitado, desta vez, Maringá. Tocaram na Universidade Estadual em um evento anarco-punk idealizado pelo gente boa Mamá. Pouco divulgado, o show valeu apenas para que não esquecessem de que antes de mais nada eram punk rock. Em nenhum show fora de Curitiba a banda dormiu em um hotel. Sempre em casa de amigos, rodoviárias ou no próprio local do evento.

Punks na U.E.M.

Punks na U.E.M.

O ano de 1994 começou para valer. O trio tinha mais de dez músicas novas e pintou uma oferta de gravação de uma fita demo. JR. Ferreira conseguiu, gratuitamente, várias horas no estúdio Solid Sound. As instalações eram extremamente simples, uma mesa de som Tascam de 8 canais estava à disposição da banda. O problema é que ninguém sabia pilotar o novo equipamento com propriedade.

Nem mesmo o dono do local, o simpático Roni. Foi nesse espírito urgente que iniciaram a gravação de 16 músicas (13 novas e três “velhas”). As novas seguiam a mesma fórmula anterior: punk rock básico + hardcore melódico. Mas os PINHEADS estavam numa fase extremamente rápida. O galopante Dude usava pedal duplo, Paulo atropelava palavras e mesmo assim se fazia entender, Júlio estava com uma mão direita precisa e veloz.

Where´s The Silver Tape? foi gravada entre janeiro e fevereiro de 1994. O título foi uma idéia de Dudu, pois o trio usava silver tape para quase tudo: segurar microfones, pedal de bateria, emendar pele do bumbo, segurar alça do contra-baixo, fixar set list no amplificador, imobilizar pedestal no chão etc. Sem silver tape era bem possível que todos os equipamentos fossem para o chão. Por dois motivos: precariedade e, principalmente, pela agitação do público.

Uma música de Júlio era a primeira da nova demo: Oh! Ja!. Essa canção de boas vindas seria a primeria de (quase) todos os shows da banda dali pra frente. Os Ramones abriam seus shows com a instrumental Durango 95 e agora os PINHEADS também tinham a sua canção abre-alas. Uma música com apenas Oh! Ja! (em alemão se pronuncia: ou iá!) como vocal. Bom para os técnicos irem ajustando o som antes de começar a porradaria. As próximas três músicas da segunda demo curiosamente começavam com Hey Hey You ou Hey Hey Dude.

Eram três letras do Paulo: Mixture Of Ideas, Skate Session e I´m Not a Nerd. A primeira falava sobre um tipo bem estranho que freqüentava o bar favorito do trio na época, o bar do Joe. O figura usava um cavanhaque enorme, se vestia de forma estilosa, porém bizarra. O rapaz parecia estar sempre alterado e rolava a lenda urbana que ele mantinha relações sexuais com sua própria irmã, uma outra doida famosa por conversar com anjos, abelhas e arco-íris nos intervalos da PUC. Era uma letra anti-drogas:

“Hey, hey you, I´ve seen observing you from ages/ The way that you behave simply called my attention/ The way you dress, there´s no reason why/ It seems you´re confused and nothing makes you happy – Tell me: Are you feeling something strange? Or maybe you´re planning a revenge/ It seems you´re affected by a mixture of ideas. I can help you with that – You´re always alone, Don´t you have some friends?/ There will always be someone who understands your way of thinking/ Stop the madness, never more use drugs/ You don´t need this stuff to be a happy person”.

Skate Session narrava mais uma daquelas noites na qual é bem melhor andar de skate na pista do Gaúcho (ao lado do Cemitério Municipal) do que ir pros bares da cidade:

“Hey hey Dude, call the guys, let´s go out tonight, get your skateboards put them in the car (ok!)/ The night of this city is getting worse and worse, let´s get drunk, forget about this bars/ Skate is a wonderful way-out, when there is nothing to do in this city, look at the bowl, there´s nobody there, prepare your adrenalin – Skate session tonight, I wanna a skate session tonight – Most of us are surfing, just going up and down, sliding on the walls/ This session is walking up the dead people in the huge sematary…”.

Letra de Skate Session escrita por Paulo

Letra de Skate Session escrita por Paulo

I’m Not a Nerd era uma das músicas prediletas do público. Pena que nesta versão, Dude errou feio no tempo. A letra era um desabafo do baixista/vocalista Paulo:

“Hey hey you, I´m not a nerd, I get drunk and go to shows/ I´m afraid of moron bros, C.J. fingers, tatooed toes/ I play bass for fun, but I don´t think that I´m the one/ I only say to you, I´m not a nerd…”.

Stupid Brains, The Basic Rock e Many-Side-Lad foram regravadas, desta vez, mais aceleradas e com vários backing vocals. Paulo era o principal letrista da banda e ainda escreveu Do It Yourself , No Public! No Show! e Luxury Bitches. Essa última, uma porrada de menos de um minuto, que começava com vocal e pregava o extermínio das putinhas de luxo da sociedade curitibana:

“The one you can´t imagine is the worst you can deal with/ Little darling in her house, rotten bitch in the night/ High hells and expensive clothes, the luxury bitches are here to look you. Ignore, my friend, they´re here to fuck with your brain/ But now dirty girl, I´ve got something for you, open your mouth and close your blue eyes/ No, bitch, no, it´s not my dick/ It´s the pipe of my huge 38, what great!/ The body´s on the floor, get her money, it´s her payment! – Exterminate, the luxury bitches!!! Society doesn´t need their entertainment!”.

A banda toda escreveu My Brother Is My Friend e Dude rabiscou Forget The Problems e Utopy. Paulo e Dude escreveram mais uma letra anti-drogas, Get Out Nasty!, e fizeram letras de amor, cada um à sua maneira.

Paulo dizia que “o inferno são os outros” em It´s Not My Fault:

“It´s not my fault if I have a mountain bike…, … if I hate birthday parties… …if I watch the Simpsons… …If I love to skate… …If your father doesn´t like me, it´s not my fault I can´t live without you… …why don´t you admit that you love this way, stop with this freshness and simply stay/ Explode this barrier, the system had put between us/ But when we´re alone in my house at the stones, I just can´t believe it´s the same girl I see. You´re turned into what I always wanted you to be”.

Já Dude, lamentava em I Don´t Know Why: “

You leave alone, there´s no reason why, you don´t look like a sanity person, I don´t know why I´m with you, maybe it´s the love blindness… …You leave ´cause I don´t know the coke´s formula. You leave ´cause I said hello to the Thursday Night Bikers, You leave ´cause I don´t believe in gnomos, You leave ´cause my favorite songs… Please tell me why!”.

Pinheads silver tape

A composição gráfica ficou a cargo de um inspirado Júlio. Todas as letras na íntegra, créditos e agradecimentos (thanks: all the Pinheads friends, all nice girls, all zines, Beach Lizards, Resist Control, João Gordo + RDP, Tube Screamers, I.M.L., Safari Hamburguers, Gangrena Gasosa, Slack Nipples, Boi Mamão, Paincult, Motorcycle Mamma, Missionários, C.M.U. Down, Os K´Bides, Alê and Pin Ups, Anões de Jardim, Magog, Cervejas e a galera do pogo. Special thanks: JR, Grilo, Maurício Gaudêncio, Armando, Fabiano, Nilo, Estúdio Solid Sound e Família Munhoz).

A demo trazia duas capas: um desenho tosco que Dude fez com um Pinhead dentro de um círculo e outra (idéia de Júlio, que mais tarde apareceu em capas de álbuns da banda ALL) com uma nota musical personalizada. Amigos de outras bandas deram uma passada no estúdio e, assim, Piupa, Roni e os Anões de Jardim, Alexandre e Frederico, fizeram guest vocals.

Uma quantidade considerável de gemas valiosas estava presente em Where´s The Silver Tape?, mas a gravação ficou ultra tosca. Paulo nunca tinha pilotado uma mesa de som e acabou ficando sob sua responsabilidade toda produção. Ele tirou leite de pedra, mas não adiantou muito. Na época, era raro uma banda independente lançar um material de excelente qualidade de som, mas esta segunda demo dos PINHEADS estava muito mal gravada. O excesso de graves, o vocal muito alto, o excesso de backing vocals mais o som sujo e embolado prejudicavam e muito o registro. Mesmo assim, resolveram lançar a demo.

PINHEADS começava o ano de 1994 com muita vontade e energia. No entanto, seus registros eram duas demo-tapes mal gravadas e um compacto 7 polegadas. Esse último, era o seu melhor cartão de visitas, porém ninguém mais escutava discos em vinil. Todo mundo só comprava e ouvia CD.

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Curitiba – São Paulo – Rio de Janeiro

Dois shows iniciaram a temporada dos PINHEADS nos palcos curitibanos. Um deles, totalmente lotado, no pequeno Mary Jane (18/03/1994). Abertura dos amigos Slack Nipples. Os covers da noite foram Gonna Find You, do Operation Ivy e We´re Only Gonna Die, do Bad Religion. Fizeram uma boa negociação com o dono do bar e até receberam porcentagem da bilheteria que resultou em um modesto, porém honesto cachê.

Set List do show no Mary Jane

Set List do show no Mary Jane

A agitação e lotação eram tão grandes que gotas de suor despencavam do teto. O amigo Alexandre Magrão (baterista dos Sarnentos e Sick Sick Sinners) recebeu uma cotovelada no pogo, e sua camiseta branca dos Sex Pistols ficou toda vermelha, manchada de sangue. Magrão não deu muita bola e continuou na roda. No final do show, a camiseta estava branquinha novamente! Neste dia, a galera do pogo tomou, literalmente, um banho de suor e energia.

Pinheads Hardcore_session

Palavras do Magrão: Cara, rolou um pogo nervoso daqueles de exorcisar a semana toda. Teve Slack Nipples antes. Aquele porão escorregadio pra caramba com as paredes suando e a gente se quebrando. Eu usava uma camiseta branca dos Sex Pistols, Never mind the Bollocks, quando tomei uma porrada no nariz e nem senti que estava sangrando. Quando percebi a camiseta estava vermelha de sangue, inteira de sangue na parte da frente.

Vi que havia parado de sangrar e continuei no pogo… e não é que o suor limpou a camiseta, cara!? Fiquei encharcado de suor, inteiro molhado. Saiu tudo, depois ficou meio amarelada.
Lembro que o show foi do caralho, muita energia, melhor show dos Pinheads pra mim.”

Pinheads Flyer_Aeroanta_Magog

O outro show foi o debut dos PINHEADS no Aeroanta de Curitiba, dia 30 de março. Tocaram com Magog, Falsa Doutrina e Resist Control. Foi uma boa estréia, local abarrotado, som bom. E perceberam que precisavam melhorar a performance em palcos maiores e mais audíveis. Nesse dia, um carro entrou no corredor de entrada do Aeroanta!! Um rapaz tinha sido expulso do local por truculentos seguranças e sua “irada” forma de protestar foi colidir violentamente seu Kadett prata na porta do estabelecimento.

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Dalí poucas semanas, o punk rock estaria nas MTV’s de todo mundo, com o estouro de Offspring e Green Day. No Brasil, uma banda parecia que ia estourar e, antes que isso acontecesse, JR. promoveu um show grande no Palácio de Cristal, no Círculo Militar. Na noite de 30 de abril de 1994, cinco bandas tocaram num palco de dois metros de altura: Intruders, Cervejas, Pinheads, Pin Ups e Raimundos.

Primeiro show dos Raimundos em Curitiba, um pouco antes de estourar

Primeiro show dos Raimundos em Curitiba, um pouco antes de estourar

Poucos meses depois, o rock pauleira dos Raimundos e do Planet Hemp estaria no mainstream. A maioria da molecada que iniciasse uma banda passaria a cantar em português. Depois da overdose de bandas nacionais nos anos 80, todas cantando na língua pátria, era perfeitamente natural para a geração do início dos anos 90 cantar em inglês. Sepultura cantava em inglês, Ratos de Porão acabava de lançar um disco em inglês e quase todas as bandas de punk/hardcore que apareciam seguiam pelo mesmo caminho.

Porém, a dificuldade para lançar um disco era enorme. Cantar em português era muito mais viável caso a sua idéia fosse “viver-de-roque”. Os PINHEADS não tinham nenhuma pretensão comercial, cantar em inglês foi uma escolha natural e essa estética não seria mudada.

Ensaios aos sábados na churrasqueira do Tio Zéca e da Tia Sula

Ensaios aos sábados na churrasqueira do Tio Zéca e da Tia Sula

A banda seguia a rotina de ensaios aos sábados e um show por mês. Os ensaios eram freqüentados por qualquer um que quisesse. Inclusive por bandas de outras cidades que vinham tocar em Curitiba, especialmente no 92. Uma das visitas mais toscas foi do insano grupo joinvilense The Power Of The Bira. Dizem que foram eles que disseminaram a expressão “Toca Raul!”.

Para não virar “arroz de festa”, os PINHEADS tentaram ficar um bom tempo sem tocar em “casa”. Resolveram também dar mais atenção à qualidade do som. Dudu comprou uma bateria Mapex, Júlio uma guitarra Ibanez clássica e um amplificador Marshall, e Paulo uns microfones bem bons. No meio do ano, foram ao estúdio Clean Sound e gravaram ao vivo cinco músicas novas, apenas para ver como iam ficar. Ficou melhor que a demo Where´s The Silver Tape?.

A Cruel Maniac estava lançando uma nova coleção de roupas e escalou PINHEADS (e Resist Control) para dar uma canja ao lado do estreante No Milk Today. Silly Bones (banda do estudante de publicidade Juliano Ribas) e OZ (de Brasília) também estavam agendadas para essa festa de lançamento no 92 Graus, dia 17 de junho. A canja era pra ser uma surpresa, mas os produtores fizeram até camiseta e cartaz do evento com o nome dos PINHEADS. Mesmo a contra gosto, o trio tocou. No meio do set, problemas elétricos acabaram com o show e com a paciência de todos.

Surpresa ao ver o nome da banda no cartaz!

Surpresa ao ver o nome da banda no cartaz!

Uma semana depois, na megalópole paulistana, tocaram no Urbania ao lado de White Frogs e I.M.L.. Local pequeno e interessante, principalmente por ter uma mini rampa de skate. Termômetro perto de zero grau (25/06/1994), público mediano e vários contatos. Um desses contatos foi com o grupo Cold Beans do skatista (e editor do fanzine Clean Sheets) Cesinha Lost.

Com um ano de atraso, finalmente tiveram o prazer de conhecer César Lost, responsável por colocar músicas dos PINHEADS nas primeiras edições em VHS dos vídeos de skate Silly Society. Lost ajudava Cristiano Mateus e Alê Vianna na produção dos Silly Society, e recheava a trilha sonora com muito punk/hardcore. Outro encontro se deu com Júnior, baixista do White Frogs. Ele tinha escrito uma Scene Report para a MAXIMUMROCKNROLL. O texto de meia página reportava a cena punk/hardcore brasileira do ano de 1993 e os PINHEADS tiveram uma foto publicada no fanzine mais  influente do punk americano.

Show com Pinheads, I.M.L. e White Frogs em S.P.

Show com Pinheads, I.M.L. e White Frogs em S.P.

No Rio de Janeiro, tocaram em um campeonato de skate (organizado pela marca HOMEY) dentro do Scala, tradicional casa de bailes de carnaval no Leblon. Camarim com cachorros quentes e muita água. Na frente do palco, na pista de dança, foi montada um espaço para street. Após o término do evento, imediatamente, se iniciou outro, com o funkeiro Latino. A má divulgação do campeonato não trouxe muitos frutos ao trio. Mas a já consolidada amizade com os Beach Lizards valia a viagem.

Laércio, Dudu, Cláudio, Paulo e Júlio

Laércio, Dudu, Cláudio, Paulo e Júlio

Não restritos ao lema “sexo, drogas e rock and roll” essas viagens eram, antes de tudo, uma celebração entre amigos. Um chopp no Baixo Gávea, vídeo do Damned na casa do Nervoso, surf em Grumari, almoço na casa do baixista Laércio e aquela frenética troca de informações roqueiras. Um Cock Sparrer e um The Boys pra lá. E Stiff Little Fingers e 999 pra cá. Paulo fala um pouco sobre isso:

Chegamos de manhã na rodoviária e fomos recepcionados pelo Danúbio Aguiar, zineiro e amigo. Dentro de um ônibus numerado em direção da zona sul, saindo da rodoviária, o Danúbio avista o Leonardo Panço, da banda Soutien Xiita e grita: “Panço, filho da mãe!” O motorista pára e entra o Panço no busão para nos acompanhar em direção ao show. Local? Boite Scala, de Chiquinho Recarey, atual símbolo da putaria gay carnavalesca da cidade maravilhosa.

Panço, Paulo, Danúbio, Júlio e Dudu. Água mineral no camarim do Scala

Panço, Paulo, Danúbio, Júlio e Dudu. Água mineral no camarim do Scala

Dude ficou feliz com a presença de um skatista das antigas chamado Cesinha Chaves, que filmava o campeonato para o programa Vibração. No final, chegaram nossos amigos do Beach Lizards e ficamos tomando conhaque e cerveja à tarde.

Turismo, amizade e punk rock no R.J.

Turismo, amizade e punk rock no RJ

À noite, numa tosqueira danada, fomos ao Canil Pub em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde todas as 10 pessoas presentes esperavam uma canja do Pinheads. A qual não aconteceu. Decepcionamos um alcoolizado Danúbio e fomos em direção a uma boite de Copacabana chamada Basement, ciceroneados por Nervoso e sua irriquieta namorada Bia. Muita sonzeira de qualidade num porão altamente promíscuo e tosco. A travesti Rogéria marcava presença nos arredores. Nem me lembro da volta, pois a amizade com os cariocas era tudo o que me interessava naquele momento. São amigos meus de sangue até hoje. Apesar de pouco nos falarmos. Pinheads era isso aí…”.

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Arquivado em 1994

Independência ou morte!

Por ser o compacto mais bem sucedido da Bloody, era natural que JR. Ferreira quisesse lançar um álbum dos PINHEADS. Mas produzir um compact disc independente no meio dos anos 90 era quase impossível.

O dono do Syndicate também comandava a rádio Estação Primeira (Mauricião e Paulo ainda faziam o programa Hardcore) e ofereceu o lançamento de um álbum inteiro dos PINHEADS. Um ano antes, o tal figura idealizou uma coletânea (Curitiba In Concert) com Slack Nipples, Paincult, Primal e Abaixo de Deus. As bandas Slack Nipples e Paincult desembolsaram uma grana suada para gravar no Estúdio Solo com a promessa de ser lançada a tal compilação. Fato que nunca ocorreu.

Os PINHEADS compraram a briga e rudemente questionaram o figura de como lançaria um álbum novo se não conseguia lançar o velho prometido. O figurão se enrolou, embolou o pé no ridículo e começou um monólogo cheio de gírias medonhas do mundo do róque. Percebendo a vergonha alheia no rosto dos PINHEADS, o “dono-da-gravadora-que-nunca-existiu” parou com a lenga-lenga e (ainda) achando que o jogo estava ganho, perguntou para a banda se aceitariam ou não a “genial” empreitada.

Com risco de riso nos lábios, o sempre direto e, às vezes, cínico Júlio, respondeu com um singelo: NÃO! A banda se retirou da reunião com frouxos de riso e com a certeza de que não seriam enganados pelo fanfarrão! Ledo engano.

Com um bom público nas costas era hora de ganhar uns trocados daqui pra frente. Afinal, queriam gravar, viajar e tocar em outras cidades do Brasil. Assim, negociaram mais um show no Syndicate (05/08/1994). Estranhamente, os donos do local aceitaram toda proposta da banda; que depois entendeu o porquê. A entrada seria de apenas dois reais, o grande espaço ficaria com lotação máxima, o dinheiro do bar era do local e um real da entrada era da banda. Júlio colocou seu tio na bilheteria e ninguém entrava sem deixar dois reais na porta de entrada.

Os PINHEADS pagaram passagens de ônibus para os amigos paulistanos dos Tube Screamers abrirem o show. Tinha tudo para dar certo. O local estava lotado. As bandas afiadas. Os seguranças avisados. O público animado. Mas os donos do local resolveram brincar com a paciência de todos. Estava armada a revanche do fanfarrão…  não iria deixar barato o abuso dos três moleques de semanas antes.

Num clima de “vamos queimar a cara desses abusadinhos”, só permitiram que os PINHEADS tocassem depois das duas horas da manhã (de uma sexta-feira) e a qualidade sonora era simplesmente ridícula. O pior equipamento de som que já tinham oferecido para o trio! Por mais que se esforçassem, era difícil agradar aos ouvidos da cansada platéia. Tube Screamers tocou Suffer, do Bad Religion, e Welcome to Paradise, do Green Day.

O cover da vez dos Pinheads era Basket Case, também do Green Day. Paulo, mais uma vez, resolveu abrir a boca, desta vez, com serenidade. Reclamou com razão de toda palhaçada promovida pelos donos do Syndicate:

“Vocês são uns idiotas. Semana passada veio tocar aqui uma banda de São Paulo chamada OKOTÔ e vocês ofereceram um som impecável para meia dúzia de pessoas na platéia. Agora vem uma banda local, trás um público legal, enche a casa e vocês retribuem a gentileza com um som e horário de merda! Muito obrigado! Mesmo“.

Paulo Kotze, baixista e vocalista dos Pinheads

Paulo Kotze, baixista e vocalista dos Pinheads

Certamente, os PINHEADS perderam uma pequena, porém consistente platéia após aquele show. Prometeram a si mesmos que nunca mais tocariam naquele local, que nunca mais negociariam com aqueles fanfarrões. O único saldo positivo foi que botaram mil pessoas para dentro, assim, mil reais entraram na caixinha da banda!

Flyer legal, equipamento lazarento

Flyer legal, equipamento lazarento

Em setembro de 1994, veio a segunda edição do famoso festival Juntatribo, em Campinas. A primeira edição revelou os Raimundos. Já a segunda não revelou ninguém! Tá certo que o Planet Hemp tocou lá e depois fez sucesso, mas o intento não foi devido àquele show. Como a maioria dos festivais “alternativos” da época, o Juntatribo errou ao escalar muitas bandas (29) e muitas tendências (tinha de tudo: rap, noise, metal, tecno, hardcore, industrial, pop, experimentalismo etc).

Em uma tenda de circo, um micropalco capenga foi montado no observatório a olho nu, o lugar mais alto da Unicamp. Muita terra, muito vento, muita fumaça e uma ducha de água fria. O Juntatribo serviu para aterrar qualquer sonho de vida fácil no underground tupiniquim. Mesmo com a presença da imprensa escrita e da MTV, o saldo do festival não foi tão positivo quanto se imagina.

Dava pra perceber que se as bandas não se valorizassem, seria difícil vislumbrar um futuro animador. Depender de produtores com um pé no chão e o outro na lua não era o objetivo de ninguém. No hardcore do festival destaque para o Garage Fuzz que mostrava um advanced do seu primeiro álbum.

Algumas bandas solidificaram laços de amizade no meio do perrengue (PINHEADS, Anarchy Solid Sound, Safari Hamburguers, Beach Lizards, I.M.L., No Class). Foi na segunda e última edição do Juntatribo que Dudu entregou alguns prometidos compactos para o entusiasmado Francesco Coppola. Dali para frente, o amigo Fran foi quem mais fotografou diferentes shows dos PINHEADS e sempre divulgava a banda pelos muitos cantos que percorria.

No Stupid Hardcore Slogans

No Stupid Hardcore Slogans

Num iluminado dia, os PINHEADS cancelaram o apoio que recebiam da Cruel Maniac. Não queriam e não precisavam vincular o nome da banda com uma surfwear. Estavam numa fase na qual uma camiseta básica branca, preta ou listrada, dizia muito mais do que estampas e logomarcas.

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Arquivado em 1994

It´s more than friendly, son

Tocar fora de Curitiba era quase sempre muito bom, mas era na cidade natal que tinham o público mais intenso e receptivo. Quando se tem vinte anos de idade, algumas coisas acontecem rápida e intensamente. Um admirador da banda levava um ou dois amigos e amigas da sua universidade. Todos simpatizantes do punk rock. Uma dessas amigas leva uma outra que nunca ouviu hardcore, mas que estava afim de barulho e diversão.

Uns dois moleques sabem que a bela garota vai marcar presença e marcam com toda turma de se encontrarem no Aeroanta, às 23 horas. E assim, formava-se a massa adolescente. Quarenta por cento gostava da banda. Outros 40 estavam lá pelo rock e pela night. Outros 20% lamentavam o barulho todo, mas lá estavam pois era um dos locais mais cheios naquela noite curitibana. Desse jeito, os PINHEADS levavam 700, 800 pagantes ao Aeroanta.

A base deste público era formada por pessoas que realmente entendiam a verdadeira essência, o verdadeiro espírito e motivo pelo qual a banda estava tocando. Para os PINHEADS, punk rock era sinônimo de público e artista no mesmo nível. De alguma forma, em alguns momentos, um seria o espelho do outro. Procuravam ser inclusivos, não arrogantes e abertos. Neste punk rock, interessava a inclusão de pessoas que se sentiam deixadas de lado ou que estavam desiludidas com seu círculo social.

A idéia era ter disposição para confrontar pessoas ou instutuições que lhe pareciam injustas ou falsas. Não se sentiam conectados com aqueles que eram elitistas, exclusivistas, nem com aqueles que pensavam que seu modo de vida era um modelo de como os outros deveriam viver.

O espaço mais querido pelo grupo começava a ficar pequeno, pois o 92 Graus ainda não tinha a estrutura adequada que o tornou notável na cena curitibana dos anos 2000. Então, a saída era tocar no 92 mas em shows diferenciados. JR teve uma boa idéia e começou a agendar os Take Five. Eram shows com cinco bandas tocando cinco músicas.

Num domingo, 23 de outubro de 1994, se apresentaram PINHEADS, Slack Nipples, No Milk Today, Paincult e Silly Bones. Tocar com bandas amigas era sempre saudável. O Slack Nipples começava a compor também em português. Rodrigo Meister, Trajano, Carmino e Mauricião faziam o segundo show da história do (ainda cru) No Milk Today.

Clássicas filipetas do 92 graus

Clássicas filipetas do 92 graus

Com a certeza de que levariam um bom público, os PINHEADS começaram a produzir seus próprios shows. Podiam tocar quando e com quem quisesse. Se preocupavam com detalhes óbvios, mas que nem sempre eram respeitados em outros eventos. Começavam a peleja num horário sensato. Tentavam colocar algum amigo para discotecar boa música. Faziam um cartaz objetivo e sem firulas. Procuravam colocar um preço honesto no ingresso. Divulgavam pelos quatro cantos da cidade e buscavam trazer boas bandas para tocar junto.

Na maioria das vezes, um show com apenas duas bandas era bem melhor do que com três, quatro ou cinco! Agendavam shows em boas datas, quase sempre aos sábados. Março e agosto sempre eram bons meses, pois era época de voltas às aulas. Gostavam de participar de festivais ou de abrir para bandas mais experientes, mas comandar o seu próprio evento era sempre prazeroso e ensinava algumas coisas. Tinham a consciência de que não poderiam controlar a realidade, mas sabiam que poderiam controlar como lidariam com a realidade.

Júlio tinha um colega na Arquitetura que sempre lembrava que, se os PINHEADS precisassem de alguma ajuda, ele estaria disposto. Assim, a marca do Luli (Luis Guilherme de Santana), do Henrique e do Murilo iria ajudar na parte de divulgação da banda. A Madshades era uma micro marca e não tinha ambições absurdas.

Eles apenas queriam fazer arte. Três quadras do bairro Vila Izabel separavam o local de ensaio dos PINHEADS (churrasqueira da casa do Dude), do atelier da Madshades (que era no caótico e estiloso quarto gigante do grande Luli). Dalí saíam faixas para ficar atrás do palco, adesivos e camisetas. Luli aceitou a “idéia contrafluxo” de Júlio e Dude, e confeccionou uma série de camisetas dos Pinheads com desenhos meio nonsense.

Ao contrário do que uma banda de hardcore apresentaria, o trio colocou como estampa de camiseta desenhos de objetos bizarros como estilingue, pião, catavento, dados etc. Pouca gente entendeu, mas era isso mesmo que queriam passar junto com o nome da banda estampado na camiseta. Queriam confundir um pouco.

A Madshades ajudava e não queria nada em troca. Não queria que a banda crescesse junto com a marca. Não organizava eventos pedindo para que os PINHEADS tocassem. Era esse tipo de apoio que o grupo queria. Além do mais, Luli era boa companhia, viajava na medida certa nas idéias de vanguarda e tinha no currículo o fato de ouvir Devo desde antes dos dez anos!

Pinheads IML Dreadfull Dead FishNo dia 10 de novembro de 1994, os PINHEADS e a Madshades organizaram um belo show no Aeroanta. O line-up trazia bandas de quatro estados brasileiros. Além dos curitibanos, I.M.L. (da capital paulistana), Dreadfull (de Belo Horizonte) e o Dead Fish (do Espírito Santo). Os Peixes Mortos capixabas vieram meio que por conta própria, pois o baterista tinha parentes em Curitiba. Os outros dois receberam passagens e hospedagem.

Os PINHEADS pegavam parte da grana que ganhavam na bilheteria para trazer bandas que gostavam. Naquela noite de quinta-feira, 700 pessoas pagaram ingresso no Aeroanta. Dreadfull abriu a noite com seu som meio Jawbreaker com pitadas de ska. O fugaziano I.M.L. veio na seqüência. Os PINHEADS fizeram seu set característico e o cover da noite foi Walking on the Moon, do The Police. Dead Fish fechou a festa com petardos de sua primeira demo (cantada em inglês) e com uma boa versão de Anesthesia, do Bad Religion.

Júlio Linhares, guitarrista dos Pinheads, 1994

Júlio Linhares, guitarrista dos Pinheads, 1994

Na noite seguinte, na sexta-feira, muita gente lotou o mesmo Aeroanta para ver Spy Vs Spy (detalhe para o baterista usando a camiseta dos PINHEADS do show da noite anterior). E no sábado: Ramones, Sepultura, Viper e Raimundos tocaram na Pedreira Paulo Leminski. Era a turnê Acid Chaos e os Ramones tocaram pela primeira e única vez na terra dos pinheirais. O ponto alto foi quando tocaram o cover do Creedence Clearwater Revival, Have You Ever Seen The Rain, depois que o céu já tinha desabado sob a capital do Paraná. Foi um final de semana marcante para muitas pessoas.

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Arquivado em 1994

Bolas Gigantes de Plástico

Agendar shows dependia de vários fatores, mas quase sempre os três integrantes concordavam entre si. Às vezes, se arrependiam de algum concerto em algum local com alguma banda. Quase sempre aprendiam a lição. Mas em um clima de férias aceitaram tocar no Clube Curitibano, numa quinta-feira, dia 1º de dezembro de 94. Era uma festa de amigos de amigos. Entrada franca.

Não receberiam nenhum cachê. Tocariam ao lado de bandas que não tinham mais o mesmo público e nem a mesma sintonia dos PINHEADS. Eram elas: Monkey Brain, Soul Striper e Resist Control. Foi um daqueles shows que você se arrepende de ter agendado logo que vê o flyer circulando, porém, não quer voltar atrás.

Nesses casos, não recomendavam e não convocavam os melhores amigos para a empreitada. Mas procuravam fazer um show no mínimo correto. E assim tocaram e aprenderam a lição definitivamente. Só tocariam quando e onde quisessem e de preferência no esquema “faça você mesmo!”.

Dudu, Fábrica de Vagabundos, 1994

Dudu, Fábrica de Vagabundos, 1994

Dez dias depois, veio mais uma edição do BIG, organizado pelo grande JR. O festival era ambicioso, traria bandas de diversos estados e com shows em todos os dias da semana. Como já era esperado, não foi um total sucesso de público, mas teve ótimos momentos.

Ao lado do Muzzarelas, Paincult, No Class e No Milk Today, os PINHEADS tocaram num lugar pequeno e extremamente tosco chamado Fábrica de Vagabundos. A espelunca não durou meio ano, mas pelo menos serviu para que o trio fizesse um show bem desprentensioso.

Dude tocou baixo em Skate Session (com Robério do Anarchy Solid Sound assumindo as baquetas) e experimentou um set list diferente. Em ritmo de festa, Júlio teve a idéia de comprar umas bolas de plástico que eram vendidas nas esquinas da cidade. Seria perfeito para entreter a numerosa platéia, principalmente num local que não tinha nenhum equipamento de iluminação ou de som profissionais. A partir daí, mais uma atração foi incorporada nos shows do grupo: as bolas gigantes, coloridas, de plástico.

Paulo lembra esta noite:

“Tive uma caganeira enorme antes do show do Pinheads, e tive que usar o banheiro que era embaixo do palco… imagine o estado. Limpei a bunda com o set list dos Muzzarelas.  ET vibrou com o ato!! Ha, ha… A outra cena era que raspei a cabeleira que Mauricião cultivava há anos, segundos antes dele entrar no palco com o No Milk Today”.

Uma das bolas gigantes de plástico

Uma das bolas gigantes de plástico

Era o fim de mais um ano. A gravação ruim de Where´s The Silver Tape? foi o ponto negativo, porém, bons shows compensaram. Shows em locais maiores, fora de Curitiba, em festivais ou organizados pela própria banda. Para o ano que viria, tinham na manga músicas novas e uns trocados na caderneta de poupança da banda. Era o fim do super intenso 1994.

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Arquivado em 1994