Rocket To Russia

Dudu, Paulo e Júlio se conheceram estudando no mesmo colégio, morando no mesmo bairro e tendo amigos em comum. Em uma fase da vida, na qual uma camiseta com o símbolo da banda favorita e um par de Mad Rats detonado nos pés podia moldar a sua personalidade e definir o seu grupo de amigos, os caboclos foram se aproximando, principalmente, pelas afinidades musicais.

Também tinham em comum o característico humor ácido do curitibano, e o apreço por esportes como basquete, judô, futebol e o estilo de vida do skate e do surf. A liberdade e a simplicidade da bicicleta também apetecia ao trio. Júlio a usava para dar aulas de judô, Paulo pedalava para chegar a tempo nas aulas de basquete e inglês, Dudu flanava pelas ruas da cidade com fone de walkman nos ouvidos.

Paulo Kotze tinha estudado violino e piano na infância. Quando entrou na adolescência, sua banda predileta era o The Police, mas sua discoteca básica era composta de tipos como Saxon, Twisted Sister e Bolshoi. Até que um dia ouviu Surfin’ Bird (versão dos Ramones) em um vídeo de surf e imediatamente adquiriu o terceiro álbum da banda, Rocket to Russia. O gosto pelo punk rock foi aumentando após ouvir Bare Faced Cheek, dos Toy Dolls.

Musicalmente, Júlio Linhares e Dudu Munhoz vinham da mesma escola. Começaram fuçando a discografia modesta de seus pais e logo se encantaram com o rock and roll dos anos 60. Posteriormente, descobriram outros gêneros musicais, até ficarem hipnotizados com um disco dos Ramones. Em lugares e épocas distintas, Júlio e Dudu, assim como Paulo, se apaixonaram por música após ouvirem Rocket To Russia.

Dudu e Júlio, além de adquirirem os poucos e bons lançamentos de punk rock em solo brasileiro, saíam do básico consumindo as fitas cassete da New Face Records (distribuidora paulistana que espalhava felicidade e raridade pelos correios do Brasil). Ali se aprofundaram nas preferências: o punk britânico e o hardcore americano.

Assim conheceram excelentes bandas de toda parte do globo. Em pouco tempo, bandas alemãs como Slime, Razzia e Vorkriegsjugend, perfilavam entre as favoritas ao lado de Toy Dolls, Ramones, Buzzcocks, Dead Kennedys, Cock Sparrer, 7 Seconds, G.B.H. e Black Flag.

No final dos anos 80, Dudu freqüentava os ensaios de uma banda chamada Necropsya, na qual seu primo Renato tocava baixo. Assim conheceu Júlio, um quatro-olho massudo que empunhava a guitarra do quarteto. A banda mudou de nome para Paincult.

Piupa, o baterista, estava sem instrumento naquela época e arquitetou com Júlio uma forma de deixar o drum kit no salão de festas do seu prédio. Assim, Júlio (3 anos mais velho que Dudu), marotamente convidou Dudu (que tinha uma bateria de fanfarra bizarra da marca Weril) para formar o The Rudinickyes.

Juntamente com Guinalda (outro primo da família Munhoz), formaram um trio que ensaiaria antes do “grupo principal” do Júlio. Apenas o atarracado guitarrista conhecia o rudimentar para tocar punk rock; mesmo assim faziam versões toscas de Circle Jerks, Ramones e Last Resort.

Músicas próprias? Apenas dois acordes ultra imaturos intitulados Catadores de Papel e Streeteiros de S.P.. O grupelho durou apenas durante o ano de 1989.  Dudu e Guinalda estavam mais interessados em eixos Tracker ou Independent, rodas Bullets ou Cross Bones, shapes Lifestyle ou Urgh! , Steve Caballero ou Christian Hosoi… resumindo: skate era quase tudo o que eles queriam fazer!

Paulo era amigo de bairro de Cassiano, o “do meio” de uma trinca na qual Júlio era o irmão mais velho. Júlio lembra que uma vez seu irmão chegou em casa apresentando um “pivete nerd com pinta de surfista” que queria “trocar uns sons”. Júlio já era conhecido por ser um dedicado colecionador de fitas e vinis de punk rock e Paulo se encantou ao observar quatro fitas dos Buzzcocks, uma ao lado da outra, milimetricamente acomodadas na estante do quarto do Júlio.

O pirralho não tinha muito material para enriquecer o arsenal do carrancudo Júlio, mesmo assim, uma nova amizade nascia e Paulo começou a acompanhar os shows e ensaios do Paincult. Paulo chamava a atenção por ser muito ativo, inquieto, elétrico e por saber cantar na íntegra e sem erros a letra de Faroeste Caboclo (Legião Urbana) e Endless Vacation, uma das músicas mais rápidas dos Ramones.

Dudu e Paulo se conheceram em 1990. Estudavam na mesma sala de aula. Certo dia, Dudu foi ao banheiro e Paulo espertamente resolveu seguir o mesmo destino. O que poderia ser um sinal de viadagem logo foi sepultado com a pergunta: “O que você tem do Ramones?”. A resposta de Dudu foi ao mesmo tempo rude e acolhedora: “Tenho tudo! Metade em vinil e o resto em fita cassete. Do que você precisa? Amanhã te trago…”. Dessa forma, iniciava outra amizade catalisada pelo rock.

Quando o Necrópsya virou Paincult, Júlio se sentiu um peixe fora d´agua. Não queria e não tinha as bases para tocar aquele som mais puxado para o metal. O estopim foi quando arquitetavam incluir um guitarrista cabeludo na banda. O hard rocker Alessandro dava mais importância à solos de guitarra de Steve Vai do que à fúria de Johnny Ramone ou Steve Diggle… sua presença nos ensaios provocou a pouco amistosa debandada de Júlio.

9 Comentários

Arquivado em 1989+1990

9 Respostas para “Rocket To Russia

  1. Abud

    Muito bom Dude, agora tem que sair do teclado e encarar as baquetas!

  2. Dessa primeira parte da formação da banda, lembro muito o motivo da minha apreciação pelo punk rock…. eu era incapaz de conseguir tocar coisas elaboradas como led zep ou algo assim. Lembro até hoje de tentar tirar a clássica starway to heaven por horas a fio e no intervalo, escutando Ramones ou “Grito Suburbano”, toquei os discos inteiros apenas acompanhando… numa boa. Era exatamente isso que eu queria! Música sem compromisso. Foi o momento que descartei o “rock progressivo” da minha vida, deixando apenas para escutar alguns bons clássicos nos churrascos e me afundei com tudo na música punk. A simplicidade é que fazia a cabeça. Provavelmente estaria até hoje tentando tirar aquela droga de música e ainda estaria ruim.

  3. Rocket to Russia foi a aula de introdução ao punkrock !!!
    Aquela foto em preto e branco no vinil por si só já despertou minha curiosidade em 88 quando me mostraram o som !!!
    Daí em diante (a até hoje) nada mudou. A essência é a mesma. A influência desse disco e dessa época é presente em todos os discos dos Magaivers, banda na qual sou compositor e vocalista.
    abraço Dude, Júlio e Paulo.
    obs. Paulo a gente ainda continua gravando ao lado da sua casa, espero que não tenha mais incomodado !!!

    • dudumunhoz

      Praticamente um comentário colossal Japa!!! “A Revista Pop Apresenta o Punk Rock”, “Never Mind The Bollocks” e “Rocket To Russia” acho que foram os discos mais importantes pra qualquer moleque brasileiro que começava a ouvir punk rock nas décadas de 70 e 80.
      Vida longa aos Magaivers!!! Uma das melhores…

    • Paulo Kotze

      Porra, Japa. Quando tem Magaivers gravando eu curto pra caralho. O problema é quando o lazarento coloca uns axés e uns rockenrous do caralho… e fica uma merda de incômodo. Estúdio mau isolado incomoda a vizinhança sim!!! Se fosse só punk rock todo dia seria cool, mas tem as merdas também!

  4. Clássico disco da revista pop, eu tenho ele, troquei por uma calça velha e um par de “docksaide”.

  5. Noel Lobo

    Caras… fabuloso !!! Gostei muito de ler as linhas todas aqui. Grande abraço e saudades dos velhos tempos.

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