Festival Evolução

Só skate não bastava. Dudu também era apaixonado por punk rock. Desse jeito, ia formando grupos medonhos que numa semana se chamavam Pompons Coletivos e na outra Funny Rockers. Para sacar o nível da tosqueira, eram grupos que tinham músicas intituladas Gerson´s Law, por exemplo.

Seguindo essa linha, um desses grupos se chamava Die-Hard and the Insolents e tinha Dudu na bateria, Rodrigo Meister no baixo, Hiro na guitarra e Mauricio Gaudêncio nos vocais. A desgraceira reinava em ensaios no quarto de Rodrigo Meister.

Apesar disso, era possível identificar versões de Ramones, Vírus 27, Cock Sparrer e Misfits. A incompetência era grande. As músicas se transformavam em algo bem diferente do original. I Give a Hoot, do D.R.I., virou uma mini-música de poucos segundos. Suicide, dos ingleses do H.D.Q., acabou virando uma “música própria” do Die-Hard and the Insolents!

A melodia, o título e a letra eram do H.D.Q., mas toda a estrutura, ritmo e velocidade, tinham a assinatura dos limitados iniciantes curitibanos. Eles compuseram duas canções próprias. Gerson´s Law não deixava de ser interessante e flertava com a música Oi!. Na outra música, trocavam os instrumentos para dar o recado em um piscar de olhos. Dudu cantava um grind core ultra rápido que recebeu o nome de 15 Segundos.

Pinheads flyers evolu

Quando o grêmio estudantil, capitaneado por Meister e Daniel Azulay, promoveu o Primeiro Evolução (primeiro festival interno de música do Colégio Dom Bosco), o quarteto se inscreveu. Dudu, na última hora, resolveu mudar o nome do grupo para PINHEADS. Um nome mais fácil e uma homenagem à banda predileta deles, Ramones.

Em cima da hora, mudança de nome: PINHEADS

Em cima da hora, mudança de nome: PINHEADS

Dessa forma, na tarde do dia 15 de junho de 1991, o Pinheads debutou ao lado das bandas Relespública, Looney Tunes, No Remorse, Pós Guerra, Damned Still e Apenas o Tempo. No pacote: covers de suas bandas favoritas e uma bandeira do Reino Unido atrás do palco (a Union Jack vermelha, azul e branca, foi emprestada via Meister da recém fundada torcida Esquadrão Tricolor, do Paraná Clube).

No meio de vários covers de bandas americanas, a bandeira só fez sentido quando tocaram Englands Belongs To Me do Cock Sparrer.

Meister, Dudu, Gaudêncio e Hiro no colégio Dom Bosco, 1991

Meister, Dudu, Gaudêncio e Hiro no colégio Dom Bosco, 1991

Essa formação ainda faria uma apresentação na escola de inglês Liberty. Letras dos Misfits e dos Ramones foram xerocadas para que alunos de dez anos de idade pudessem acompanhar Maurício cantando pérolas como Angel Fuck e Now I Wanna Sniff Some Glue.

A festinha regada à refri acabou com uma jam session devido à inesperada visita da banda Relespública. Aqueles mods de 14 anos tocavam Ramones, Ira! e Sex Pistols bem melhor que os PINHEADS, alguns anos mais velhos.

Dudu, Gaudêncio, Hiro. Primeiro show dos Pinheads.

Dudu, Gaudêncio, Hiro. Primeiro show dos Pinheads.

Após presenciar um show dos Ramones em São Paulo, Hiro resolveu parar de tocar guitarra. Pois apertar a mão de Joey Ramone e ver a performance de palco de Johnny saciou toda fantasia musical do pequeno japonês.

Sabendo que o já estudante de arquitetura Júlio estava meio parado, Dudu resolveu chamar o amigo para tocar nos PINHEADS. Após alguns poucos ensaios, Maurício comprou uma bateria ainda mais tosca que a do Dudu.

Maurício Gaudêncio sabia que cantar, era o que ele poderia fazer de pior numa banda e sabiamente resolveu se dedicar aos tambores, pratos e pedais de bateria, recém adquiridos.

Dudu, Rodrigo e Júlio se divertiam fazendo covers, mas agora faltava um vocalista. Dudu pensou no ainda colega-de-classe-com-exatamente-o-mesmo-gosto-musical e já amigo Paulo. O convite de Dudu foi uma idéia acertada.

Paulo, que nunca tinha estado numa banda, seria o vocalista, pois além de dominar a língua inglesa, o polaco também conhecido como Ice Man, até que era afinado. Após alguns ensaios na casa do Rodrigo, participaram da segunda edição do Evolução, em outubro de 1991, novamente ao lado de Relespública, Looney Tunes, No Remorse. Contando ainda, com Dráculas Crápulas, Fears Vampire Killers e Mente Oculta.

Primeira apresentação de Paulo Kotze

Primeira apresentação de Paulo Kotze

No dia nove de novembro de 91, ainda como quarteto, eles fizeram um show no colégio Santa Maria (Festival Santo Rock). Dudu, Rodrigo, Paulo e Júlio despejaram músicas que amavam: Where are they now?, do Cock Sparrer; Astro Zombies e Hybrid Moments, dos Misfits; I Wanna Live, dos Ramones; e What can you do? e Sanity, do Bad Religion.

No final deste ano, Rodrigo repetiu de ano e foi proibido pelos pais de tocar rock por um tempo (anos depois formaria o No Milk Today). O dedicado vocalista Paulo resolveu aprender a tocar baixo. Em algumas semanas, dominou o básico do instrumento e assumiu as quatro cordas. Com isso, o PINHEADS se tornou um trio no mês de dezembro do ano de 1991.

14 Comentários

Arquivado em 1991

14 Respostas para “Festival Evolução

  1. Schmidt

    Dude,
    lembro desse dia ai no Dom Bosco com a bandeira pendurada atras de voce🙂

    Li quase tudo e lembrei de muita coisa boa
    um abraco
    schmidt

    • dudumunhoz

      Grande Ximitão!
      Você também marcou presença naquele show no Bronx. Você, o primo, o Fausto, o Gian…
      Forte abraço.
      dudE

  2. Hehehe, esse dia foi muito engraçado. Resolvi montar a minha primeira banquinha, só que foi de refrigerante, pois não tinha nada para beber no colégio naquele dia. A cantina estaria fechada. Lembro de pedir para a minha mãe dar um pulo lá e ajudar, pois como iria tocar, quem cuidaria da barraca? Ela levou docinhos, brigadeiros e dois amores e vendemos quase tudo. Pude comprar uma camiseta com o lucro da banca e ajudar minha mãe. Memorável lembrança.

  3. Poizé. Como são as coisas.
    Sou mineiro e entre 89 e 92 morei em Curitiba. Já curtia Buzzcocks, Toy Dolls, Ramones e outras bandas punk influenciado pelo morador do 13o andar do meu prédio, no bairro do Jaú. Estudava no Dom Bosco. E em 91 escutava falar de uma banda que se chamava Pinheads.
    Fui no festival Evolução e vi os caras tocando. Já tinha um violão. No dia seguinte pedi pro meu pai me comprar uma guitarra. Vendi todos os meus disco do Led Zeppelin, Pink Floyd e The Doors para o meu irmão e dei mais atenção ao Ramones Mania e o Rocket to Russia que tinha acabado de comprar.
    Isso foi em 1991. Em 1996 eu entrei para o Dread Full e lá fiquei até 2006. Gravamos uma coletânea juntos, Flying Music for Flying People. Mas nunca tive a oportunidade de tocar com aquela banda que me inspirou a empunhar a guitarra no estilo punk-rock.
    A história do Pinheads tem que ser lida por todos os moleques que hoje se atrevem a dizer que conhecem o punk-rock.
    Devia ser publicada e fazer parte da Biblioteca do Dom Bosco.

    Parabéns por disponibilizarem suas lembranças e histórias.

    Grande abraço!

    Cota

  4. Laércio

    Bela história. Me fez lembrar a história do Beach Lizards. Basta mudar os personagens, a cidade, o nome da escola e um ou outro detalhe e a história é praticamente a mesma. Amigos de escola formando uma banda, mudanças de nome (o BL começou como DOI-Codi, depois Flint´stones), de formação, tocando covers de Ramones, Buzzcocks, Dead Kennedys, Sex Pistols e já 2 ou 3 músicas próprias no sarau do colégio Marista São José no Rio de Janeiro. Aliás, essa é outra história que merece ser contada. Para entrar no sarau de 1988 era necessário enviar uma fita demo. Como não tínhamos (naquela época não era simples gravar uma), gravamos uma fita com 4 músicas do Buzzcocks e enviamos dizendo que éramos nós (a banda ainda se chamava DOI-Codi). Passamos… Por causa desse nome, saímos na revista do Jornal do Brasil, dizendo que éramos simpatizantes do nazismo (hahahahah). Garotos de 17 anos (com exceção do Demétrius e Túlio, que já estavam na casa dos 30, hahahaha)…

  5. Brother! Ler essas paradas todas me lembrou muuuito meus 16 anos nesta mesma época aqui no Rio!
    E ler os depoimentos do Cota e do Laércio deu mais nostalgia ainda!
    Abraço

  6. Noel Lobo

    Eu estava presente nesse evento do Dom Bosco… Se me lembro bem, o Trajano era vocalista da Relespública nessa época. Lembro que ele saiu da banda no palco, pela negativa dos outros membros face ao pedido do sarnentão de tocar uma música do Sex Pistols que estava ensaiada… era Lazy Sod ou Holidays in the Sun se não me falha a memória. Ele disse que era a única música que ele realmente gostava de cantar. Se não iriam tocar nos shows, ele prefiria sair da banda. Face a negativa, colocou o microfone de volta no cachimbo do pedestal e desceu do palco. Eu fiquei boquiaberto. O Fabio Sertanejo Elias, na época um MOD convicto, assumiu o vocal para o fim do show.
    (acho que foi isso, me corrijam se minha memória foi falha depois de 1.000.000.000.000 de cervejas)

    Nesse momento, e obviamente inspirados pelo Pinheads, iniciou-se o processo de concepção e nascimento de uma banda chamada Barbapapas. Dia memorável.

  7. Estive nos dois Evolução, lembro do Gau Gau cantando com a franja comprida. Bandeira da UK era a coisa mais punk que eu podia imaginar.

  8. João Vitor

    Valeu Ai Dudu!

    Esse blog é incrível!
    Tenho apenas 21 anos.
    Quando os Pinheads começaram a tocar eu nem era nascido mas gostaria de ter visto um show ao vivo.

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