The Kids are Alright

A espera pelo material era grande. Para diminuir a ansiedade, shows e músicas novas! Enquanto não chegavam os compactos, fizeram quase dez novas músicas e uns cinco shows pela cidade. Na tarde de um domingo (28/03), ao lado do Hellsaints (com membros do Abaixo de Deus e Paincult) fizeram um show ao ar livre na calçada do Tuca´s Bar (com Cassiano Magog cantando o cover da noite: Orgasm Addict, dos Buzzcocks). Outro show foi para dez gatos pingados, quando pela primeira vez tocaram no 92 Graus, abrindo para a banda July et Joe.

Cabelo bola na calçada do Tuca´s Bar

Paulo (cabelo bola) e Júlio no Tuca´s

Foi num domingo, dia 16 de maio de 93, que o PINHEADS começou a ter um público mais numeroso. Abriram para os “veteranos” Missionários, em um 92 Graus quase lotado. Estavam com um set list equilibradíssimo e com o público na mão! A platéia era formada por amigos e pela turma que gostava de punk rock em Curitiba.

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Meses depois, no final de julho, o material chegou! Disquinhos de vinil em caixas de papelão de um lado. Capas desmontadas de outro. Seiscentas cópias ficaram para o selo Bloody e as quatrocentas restantes para a banda. Passaram horas e horas na casa do Júlio, ouvindo o compacto ininterruptamente, enquanto dobravam e colavam as capas uma por uma.

Alguns discos eram vendidos por preços módicos. A maioria era cortesia para divulgar o trabalho. Outras cópias certeiras estavam separadas para divulgação via Correios do Brasil. Estavam acostumados a enviar/receber coisas pelos correios. Tinham o hábito de receber em casa, pacotes com fanzines, adesivos, camisetas, discos e fitas cassete.

O circo estava armado. Tinham um compacto, uma demo, camiseta, “adesivo de papel contact” e poucos e bons admiradores. O Caderno G da Gazeta do Povo escreveu: “FOR FUN EP – PINHEADS (Bloody): É impressionante como os caras conseguem uma precisão que arrasa qualquer ouvido. Inspirado na turma do punk californiano do melody hardcore – e isso fica mais que explícito na ode California – o trio manda em doze minutos seis bombas atômicas. Won´t Change For Good tem um ótimo punch, as letras carregam estruturas melódicas de três décadas atrás e o vocalista/baixista Paule, mesmo não tendo voz muito adequada, não deixa a bola cair”.

Adesivo de papel contact !!

Adesivo de papel contact !!

Houve um show de divulgação dos compactos, no qual o produtor Carlos Eduardo Miranda elogiou a música nova I´m Not a Nerd e o cover The Kids Are Alright do The Who. Na semana seguinte, no Berlim (porão do Bar do Hermes), tocaram junto com C.M.U. Down e Vupland, dia 31 de julho, o “mais frio da história de Curitiba”.

Neste show, o Rodrigo da marca Hocka Hey! ajudou na confecção de camisetas com o desenho da capa do compacto. As 15 camisetas foram vendidas rapidinho. Mais música nova e o cover da noite, American Jesus, foi bisonhamente cantado pelo amigo Zé Laporte.

A amizade do trio com os aniversariantes da noite, Mauricio Singer e Slash, foi se intensificando. Dudu apelidou Singer de Mauricião (pois já existia Mauricio Gaudêncio na turma). Mauricião tinha um programa na rádio Estação Primeira (Estação Laser) e foi o primeiro a tocar Nirvana nas ondas radiofônicas sulamericanas. O cabeludo Mauricião estudava com o ex-pinhead Hiro, na FAE, e começou a freqüentar os ensaios do trio. Em pouco tempo, era companhia inseparável dos PINHEADS. Se auto-intitulava o quarto integrante da banda. Não colaborava nas composições de novas músicas e letras, porém, ajudava o trio em tudo que fosse necessário.

Pinheads 31_de_Julho_93

JR. Ferreira com o seu 92 Graus, e com o lançamento de compactos de 13 bandas independentes, foi um grande incentivador da história do rock curitibano! A programação do 92 era intensa, sempre trazendo bandas de outros estados. A revista Bizz e quase todos os grandes jornais diziam que Curitiba era a Seattle brasileira. Quase sempre marcando presença nos shows do 92 Graus, os três Pinheads tratavam de entregar o seu compacto para as bandas que gostavam. Dessa forma, ficaram amigos dos cariocas do Beach Lizards e de muitos outros grupos.

Adesivo de papel contact - arte por Júlio

Adesivo de papel contact - arte por Júlio

Em um sábado, no meio de junho, estava agendado um show dos paulistanos Pin Ups. Dudu resolveu visitar o 92 Graus na passagem de som dos Pin Ups, à tarde. Entregou um compacto para o guitarrista e gente fina Luiz Antonio Algodoal, outro para a baixista Alê (que na época namorava João Gordo, dos Ratos de Porão) e outro para o roadie da banda.

Dudu sabia que o Farofa, roadie dos Pin Ups, era vocalista de duas bandas de Santos: Garage Fuzz (o Neri tinha uma demo do GF) e Safari Hamburguers. Dudu tinha o vinil que o Safari havia recém-lançado pela gravadora Cogumelo e tratou de entregar um compacto para o rapaz. De noite, chegou ao 92 e observou uma turma conversando. A roda era composta por um sociável Paulo Kotze, mais o publicitário Neri e a baixista Alê (que acabara de colocar um adesivo caseiro dos PINHEADS no seu contra-baixo, mesmo alertando que não tinha gostado da letra de California). Alê disse que havia gostado do compacto e que tentaria agilizar um show dos PINHEADS na capital paulista.

11 Comentários

Arquivado em 1993

11 Respostas para “The Kids are Alright

  1. Toda a concepção da arte na época foi inspirada escutando muito Bad Religion e Ventures. “walk don’t run”, “hawaii 5.0”, “no control”….
    7 Seconds, Agent Orange e Youth Brigade faziam parte do que mais eu escutava no walkman.

  2. Laércio

    Na primeira vez que o Beach Lizards tocou no 92 Graus, em Ctba, ficamos hospedados na casa do gente finíssima J.R., que era em cima do 92. Ficamos impressionados com a hospitalidade do casal, que na época estava com um bebezinho e, assim mesmo, hospedou um bando de moleques do Rio que queriam fazer bagunça. Mas nos comportamos direitinho na casa dele. Foi lá que conhecemos os Pinheads, ouvimos o compacto For Fun, que eles nos deram de presente. Lembro de ter ficado impressionado com a qualidade da gravação e das músicas e o som diferente (pelo menos pra mim que, na época, não conhecia muito o hardcore californiano). Daí pra frente foi ouvir direto Pinheads, Bad Religion, Pennywise e a amizade entre as bandas só cresceu.

    • dudumunhoz

      Na segunda vez que vocês vieram lembro da gente ouvindo o programa HARDCORE na sala do JR. Era a primeira edição do programa (final de 93)! HARDCORE número um! Com mudanças de rádio e nome (Punk Rock Radio, 91 Punk Radio) o programa durou até janeiro de 2009 quando a rádio rock passou a transmitir jogos de futebol e o programa resolveu dar um tempo. No começo os 3 Pinheads ajudavam na produção, no final apenas eu ajudava… mas todo o mérito de longevidade, produção e assiduidade é do Mauricião! Incansável produtor do Punk Radio. Abraço a todos, Dudu.

    • dudumunhoz

      O JR, os compactos e o 92 teve uma importância fundamental na história do rock de Curitiba. Nossa cidade nunca foi uma referência no rock e sem o JR seria ainda mais pobre, em todos os sentidos. Obrigado JR, por tudo.

      • julio

        Certamente o visionário JR, bem como alguns outros na cidade tentaram fazer uma cena underground acontecer. Acho que vale a pena relembrar de outros como o Fardado e o Vlad que fizeram alguma coisa também, embora focando outros segmentos. Mas fizeram e fazem um agito na cidade. O JR ainda tá na ativa, mas tudo mudou. As bandas são um lixo hoje, a internet como forma de divulgação perdeu muito a força. Nesse ponto é legal de lembrar que na época do Pinheads, era no boca a boca, alguns cartazes e filipetas e a galera tava lá para realmente curtir. Os shows eram lotados de amigos. Hoje as bandas não conseguem nem levar um convidado por integrante, como é de praxe de várias casas noturnas, fazendo os shows ficarem vazios. Onde estão os amigos? Provavelmente em casa, batendo um papo virtual com outra pessoa. Ou então escutando o sucesso de um mp3 que nem sabe de quem é, pois isso também ferrou tudo. A internet como forma de veículo de informação é um fracasso. Cansei de ver nego que diz que gosta de escutar um Ramones, mas nem sabe de que data, álbum ou mesmo quem, tocava na banda. A informação está fácil demais, porém fragmentada. No tempo do vinil é que era tesão!! Capa, contracapa, encarte, davam um panorama e informação mais interessante que o próprio cd. Além do cuidado necessário para preservar o material. Gravasse em fitas k7 as músicas, fazendo coleções de fitas também e coletâneas especiais.

        Eu confesso que depois que a banda acabou, fiquei realmente perdido com relação a música. Tentei tocar com um monte de gente, mas nada me deu o mesmo prazer que tocar com o Pinheads. Cheguei a montar um selo para ajudar bandas locais e até mesmo bandas de fora de Curitiba e do Brasil, mas a internet novamente me frustrou. Era engraçado, vendia umas demos de bandas como Nitrominds, Guliver, Butt Spencer, depois vieram cds de outras bandas e isso tudo era muito mais interessante, pois eu estava fazendo algo pela cena. Nascia a Barulho. Junto com o Mauricião e meu irmão Cassiano agitamos muitas coisas na cidade também. Tive o prazer de lançar bandas como Attaque 77, Millencolin, Satanic Surfers e No Fun At All por aqui. Apresentar bandas diferentes para o público daqui, como: Riotgun, Psycho Gambola ou Bambix. Montar uma loja que focava o estilo punk rock, mesmo sem ganhar nada com isso, apenas prazer por estar na cena como personagem. E apoiando shows: Exploited, GBH, Vibrators, The Queers, Down By Law, Ratos de Porão, Garotos Podres. Depois de tudo isso, também acabamos por fechar a loja e assim a cidade perdeu mais uma peça importante para a música. A referência acaba, a música meio que se perde nesse estilo. Percebi claramente que sem alguém que se disponha a estar a favor do underground, atuando, trabalhando, usando parte do seu tempo para dar atenção à música, tirar o time de campo, todo mundo perde. Foi o que aconteceu com a Barulho.

  3. Como a Pinheads chegou na “Terra do Peão”?

    Pode parecer inimaginável, mas no passado teve uma cena de rock alternativo muito produtiva em Barretos. A Pinheads foi uma das bandas responsáveis pela manutenção dela até o final dos 90´s.
    Diz a lenda que o Dudu passou por Joinville/Jaraguá do Sul e presenteou o Alexei (vulgo Peewee) com um compacto de sua banda chamada Pinheads.
    Depois de um período vivendo no Sul, o barretense retornou para a roça e espalhou esse compacto e outros sons sulistas para os rockers caipiras. Trouxe na mala alguns zines, k7´s, discos e uma certa motivação para influenciar os colegas para montarem bandas.
    Nesse período eu tocava numa banda chamada Corrosão e estávamos buscando outras direções musicais. Eu escutava muito rock 60´s e tentava ludibriar meus colegas para criarmos algo melódico ao invés de perambularmos pelas zonas barulhentas do crossover, grind ou thrash. Apesar de gostar desses estilos, minha intenção era criar um conjunto que misturasse a influência melódica 60´s com as distorções e a rapidez do hardcore.
    Um dos primeiros contatos com o chamado “punk melódico”/“hc melódico” foi escutando o compacto “For Fun”. Nós conhecíamos Adolescents, Circle Jerks, Buzzcocks, Agent Orange, Husker Du… mas bandas da Epitaph/Lookout!/Fat Wreck (exceto Bad Religion) ainda eram coisas estrangeiras para nossos ouvidos.
    O compacto foi a faísca necessária para eu sair da Corrosão e chamar outros amigos que compartilhavam comigo a idéia de fazer um som “simples, rápido e melódico”. O conceito de “tosco” que o Julio utilizava muito nas correspondências, vinha a calhar com a proposta da minha nova banda. A velocidade do som produzida pela Pinheads e a minha identificação com o vocal melódico do Paulo movimentaram as idéias iniciais para a criação da Guliver.
    Thanx Julio e Pinheads!!

    • dudumunhoz

      Relato interessantíssimo Daniel. Muito obrigado cara…
      Guliver foi a primeira banda a gravar um cover dos Pinheads !!!
      Mauricião comentou isso no encarte do tributo Here´s The Silver Tape!
      Forte abraço. Dudu, Paulo e Júlio

  4. Paulo Kotze

    Nao fui eu quem largou uns compactos em Jaragua do Sul, pois tenho parentes por lá e ia direto nas férias pra aquelas bandas???

  5. Pô… vcs lembraram desse encontro dos “PINS”… Pin Ups e Pinheads no ap do JR no 92º….. Realmente fui eu que apresentei o Paulo para a Alê/Luiz/Farofa… O Farofa do Garage Fuzz era roadie do Pin Ups e não acreditou quando conheceu o Pinheads (Via Paulo)… meses depois ele já cantava “California” com o Pinheads…. Valeu muito pela lembrança; Obrigado, Neri
    http://mofonovo.blogspot.com

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