Onde está o silver tape?

Os PINHEADS não se iludiam com elogios da imprensa. Os jornalistas – em sua maioria – eram leigos no assunto punk/hardcore, noticiavam o óbvio ou apenas modificavam e reciclavam releases. Mais valia um comentário sincero de um amigo roqueiro ou uma crítica construtiva de um membro de alguma banda que eles gostavam.

Por outro lado, sabiam que os poucos e bons elogios, traziam novos ouvidos atentos para incrementar seu crescente público. Entendiam que se comparassem a música que estavam fazendo com bandas pioneiras do gênero (Circle Jerks, Adolescents, Dag Nasty) ficariam anos-luz atrás na produção, qualidade de gravação, técnica, maturidade, etc. Porém, também sabiam que estavam fazendo o possível com os parcos recursos que tinham e, principalmente, amavam o estilo musical que tocavam.

Mas para alguns moleques curitibanos, aquele tipo de punk/hardcore era uma novidade e tanto! Muitos moleques foram a um show pela primeira vez num show dos PINHEADS. Muitos moleques ouviram o compacto For Fun antes de ouvir Suffer, do Bad Religion, ou My Brain Hurts, do Screeching Weasel. A garotada só tinha visto stage dives e rodas de pogo em fitas VHS mal gravadas. Foi em algum show dos PINHEADS, no 92 Graus, que eles interagiram com banda e público de forma tão intensa pela primeira vez.

92 Graus: o C.B.G.B. curitibano

92 Graus: o C.B.G.B. curitibano

O norte do Paraná foi mais uma vez visitado, desta vez, Maringá. Tocaram na Universidade Estadual em um evento anarco-punk idealizado pelo gente boa Mamá. Pouco divulgado, o show valeu apenas para que não esquecessem de que antes de mais nada eram punk rock. Em nenhum show fora de Curitiba a banda dormiu em um hotel. Sempre em casa de amigos, rodoviárias ou no próprio local do evento.

Punks na U.E.M.

Punks na U.E.M.

O ano de 1994 começou para valer. O trio tinha mais de dez músicas novas e pintou uma oferta de gravação de uma fita demo. JR. Ferreira conseguiu, gratuitamente, várias horas no estúdio Solid Sound. As instalações eram extremamente simples, uma mesa de som Tascam de 8 canais estava à disposição da banda. O problema é que ninguém sabia pilotar o novo equipamento com propriedade.

Nem mesmo o dono do local, o simpático Roni. Foi nesse espírito urgente que iniciaram a gravação de 16 músicas (13 novas e três “velhas”). As novas seguiam a mesma fórmula anterior: punk rock básico + hardcore melódico. Mas os PINHEADS estavam numa fase extremamente rápida. O galopante Dude usava pedal duplo, Paulo atropelava palavras e mesmo assim se fazia entender, Júlio estava com uma mão direita precisa e veloz.

Where´s The Silver Tape? foi gravada entre janeiro e fevereiro de 1994. O título foi uma idéia de Dudu, pois o trio usava silver tape para quase tudo: segurar microfones, pedal de bateria, emendar pele do bumbo, segurar alça do contra-baixo, fixar set list no amplificador, imobilizar pedestal no chão etc. Sem silver tape era bem possível que todos os equipamentos fossem para o chão. Por dois motivos: precariedade e, principalmente, pela agitação do público.

Uma música de Júlio era a primeira da nova demo: Oh! Ja!. Essa canção de boas vindas seria a primeria de (quase) todos os shows da banda dali pra frente. Os Ramones abriam seus shows com a instrumental Durango 95 e agora os PINHEADS também tinham a sua canção abre-alas. Uma música com apenas Oh! Ja! (em alemão se pronuncia: ou iá!) como vocal. Bom para os técnicos irem ajustando o som antes de começar a porradaria. As próximas três músicas da segunda demo curiosamente começavam com Hey Hey You ou Hey Hey Dude.

Eram três letras do Paulo: Mixture Of Ideas, Skate Session e I´m Not a Nerd. A primeira falava sobre um tipo bem estranho que freqüentava o bar favorito do trio na época, o bar do Joe. O figura usava um cavanhaque enorme, se vestia de forma estilosa, porém bizarra. O rapaz parecia estar sempre alterado e rolava a lenda urbana que ele mantinha relações sexuais com sua própria irmã, uma outra doida famosa por conversar com anjos, abelhas e arco-íris nos intervalos da PUC. Era uma letra anti-drogas:

“Hey, hey you, I´ve seen observing you from ages/ The way that you behave simply called my attention/ The way you dress, there´s no reason why/ It seems you´re confused and nothing makes you happy – Tell me: Are you feeling something strange? Or maybe you´re planning a revenge/ It seems you´re affected by a mixture of ideas. I can help you with that – You´re always alone, Don´t you have some friends?/ There will always be someone who understands your way of thinking/ Stop the madness, never more use drugs/ You don´t need this stuff to be a happy person”.

Skate Session narrava mais uma daquelas noites na qual é bem melhor andar de skate na pista do Gaúcho (ao lado do Cemitério Municipal) do que ir pros bares da cidade:

“Hey hey Dude, call the guys, let´s go out tonight, get your skateboards put them in the car (ok!)/ The night of this city is getting worse and worse, let´s get drunk, forget about this bars/ Skate is a wonderful way-out, when there is nothing to do in this city, look at the bowl, there´s nobody there, prepare your adrenalin – Skate session tonight, I wanna a skate session tonight – Most of us are surfing, just going up and down, sliding on the walls/ This session is walking up the dead people in the huge sematary…”.

Letra de Skate Session escrita por Paulo

Letra de Skate Session escrita por Paulo

I’m Not a Nerd era uma das músicas prediletas do público. Pena que nesta versão, Dude errou feio no tempo. A letra era um desabafo do baixista/vocalista Paulo:

“Hey hey you, I´m not a nerd, I get drunk and go to shows/ I´m afraid of moron bros, C.J. fingers, tatooed toes/ I play bass for fun, but I don´t think that I´m the one/ I only say to you, I´m not a nerd…”.

Stupid Brains, The Basic Rock e Many-Side-Lad foram regravadas, desta vez, mais aceleradas e com vários backing vocals. Paulo era o principal letrista da banda e ainda escreveu Do It Yourself , No Public! No Show! e Luxury Bitches. Essa última, uma porrada de menos de um minuto, que começava com vocal e pregava o extermínio das putinhas de luxo da sociedade curitibana:

“The one you can´t imagine is the worst you can deal with/ Little darling in her house, rotten bitch in the night/ High hells and expensive clothes, the luxury bitches are here to look you. Ignore, my friend, they´re here to fuck with your brain/ But now dirty girl, I´ve got something for you, open your mouth and close your blue eyes/ No, bitch, no, it´s not my dick/ It´s the pipe of my huge 38, what great!/ The body´s on the floor, get her money, it´s her payment! – Exterminate, the luxury bitches!!! Society doesn´t need their entertainment!”.

A banda toda escreveu My Brother Is My Friend e Dude rabiscou Forget The Problems e Utopy. Paulo e Dude escreveram mais uma letra anti-drogas, Get Out Nasty!, e fizeram letras de amor, cada um à sua maneira.

Paulo dizia que “o inferno são os outros” em It´s Not My Fault:

“It´s not my fault if I have a mountain bike…, … if I hate birthday parties… …if I watch the Simpsons… …If I love to skate… …If your father doesn´t like me, it´s not my fault I can´t live without you… …why don´t you admit that you love this way, stop with this freshness and simply stay/ Explode this barrier, the system had put between us/ But when we´re alone in my house at the stones, I just can´t believe it´s the same girl I see. You´re turned into what I always wanted you to be”.

Já Dude, lamentava em I Don´t Know Why: “

You leave alone, there´s no reason why, you don´t look like a sanity person, I don´t know why I´m with you, maybe it´s the love blindness… …You leave ´cause I don´t know the coke´s formula. You leave ´cause I said hello to the Thursday Night Bikers, You leave ´cause I don´t believe in gnomos, You leave ´cause my favorite songs… Please tell me why!”.

Pinheads silver tape

A composição gráfica ficou a cargo de um inspirado Júlio. Todas as letras na íntegra, créditos e agradecimentos (thanks: all the Pinheads friends, all nice girls, all zines, Beach Lizards, Resist Control, João Gordo + RDP, Tube Screamers, I.M.L., Safari Hamburguers, Gangrena Gasosa, Slack Nipples, Boi Mamão, Paincult, Motorcycle Mamma, Missionários, C.M.U. Down, Os K´Bides, Alê and Pin Ups, Anões de Jardim, Magog, Cervejas e a galera do pogo. Special thanks: JR, Grilo, Maurício Gaudêncio, Armando, Fabiano, Nilo, Estúdio Solid Sound e Família Munhoz).

A demo trazia duas capas: um desenho tosco que Dude fez com um Pinhead dentro de um círculo e outra (idéia de Júlio, que mais tarde apareceu em capas de álbuns da banda ALL) com uma nota musical personalizada. Amigos de outras bandas deram uma passada no estúdio e, assim, Piupa, Roni e os Anões de Jardim, Alexandre e Frederico, fizeram guest vocals.

Uma quantidade considerável de gemas valiosas estava presente em Where´s The Silver Tape?, mas a gravação ficou ultra tosca. Paulo nunca tinha pilotado uma mesa de som e acabou ficando sob sua responsabilidade toda produção. Ele tirou leite de pedra, mas não adiantou muito. Na época, era raro uma banda independente lançar um material de excelente qualidade de som, mas esta segunda demo dos PINHEADS estava muito mal gravada. O excesso de graves, o vocal muito alto, o excesso de backing vocals mais o som sujo e embolado prejudicavam e muito o registro. Mesmo assim, resolveram lançar a demo.

PINHEADS começava o ano de 1994 com muita vontade e energia. No entanto, seus registros eram duas demo-tapes mal gravadas e um compacto 7 polegadas. Esse último, era o seu melhor cartão de visitas, porém ninguém mais escutava discos em vinil. Todo mundo só comprava e ouvia CD.

7 Comentários

Arquivado em 1994

7 Respostas para “Onde está o silver tape?

  1. Paulo Kotze

    Não acho que a gravação da Silver Tape ficou boa, realmente era ultra-tosca. Mas não comprometeu sua divulgação, e até hoje acho que foi um auge de criação. Claro que não sabíamos tocar direito, quem dirá gravar algo sem estúdio adequado. Mas pensem que naquela época, era muito difícil qualquer coisa de estúdio sem grana. Foi um marco, na minha opinião, uma fita tão mal gravada ser tão divulgada como essa…

  2. Esse show de Maringá, foi no mínimo muito inusitado. Antes de embarcar no busão de manhã cedo, varei a noite tomando muita cerveja no 92 graus. Fiquei acordado até a hora do embarque, planejando dormir no ônibus. Foi inútil. No banco da frente um casal com 2 filhos pequenos e atrás 1 mulher com 3 crianças chorando de Curitiba a Maringá. Cheguei lá um caco. Os caras nos esperavam na rodoviária e nos levaram para a casa de alguém, não lembro quem. Onde nos ofereceram um chuveiro e apenas eu me banhei. O resto da banda ficou sem banho, por opção. Após o banho refrescante, rolou um risoto. Estranhei na hora que a mãe do cara colocou uma garrafa de plástico, daquelas brancas de 1 litro de leite, com água na mesa e falou que podíamos beber no bico. Sem grilo, foi no bico mesmo. Depois disso, muito quebrado, fomos a uma casa desocupada do amigo Carmino e dormimos no chão. O combinado era de alguém nos pegar por volta da 18:00 / 19:00 e irmos até ao local do show. Ninguém apareceu. Ligamos para os telefones que tinhamos de contato e nada!!! Deu 20 horas da noite e começamos a nos preocupar, pois se não me engano, tocaríamos as 21hs. Pegamos as nossas coisas e começamos a caminhar para o local, sem saber onde era e sem grana para pegar um ônibus ou táxi. Andamos uma cara e decidimos pegar um táxi e seja o que deus quiser. Na hora de chegar lá chamamos alguém da organização para pagar. Ok, chegamos bem na hora. Tocamos e depois fomos tomar uma cerva (1 cerva mesmo). Todo mundo podre e puto com a situação. Aí nos chamaram e disseram que nos levariam para pegar o ônibus de volta, que seria em outra cidade, cerca de un 90 km de distancia…. Bizarro!!!! 5 num fusca com as mochilas e instrumentos. Nos largaram na outra rodoviária que até hoje não consigo recordar o nome. Tava um clima estressante entre a banda, por causa do cansaço. Como o ônibus era só pela manhã e ainda eram cerca de 1 da madruga, nos acomodamos no chão da rodoviária, cada 1 num canto, abraçado com seu instrumento para que ninguém roubasse.

    Lembro de ter acordado no meio da noite e olhado para chão e visto uma barata bem no centro onde estávamos deitados. Torci para ela não vir em minha direção e “felizmente” ela foi na direção do Paulo, se escondendo em baixo do cara….. tosquera pura!

    • dudumunhoz

      O show de Maringá e o de Jundiaí foram as piores baterias que nos ofereceram. Pegamos o ônibus da volta em Arapongas.

  3. Ah! Lembro que devido a precariedade do evento de Maringá, Paulo pulou até quebrar o palco, pulou de raiva mesmo.

  4. E outra coisa engraçada: tanto em Apucarana, quanto em SP, quando ficamos na casa do Gordo, a gente só conseguiu acordar, porque eu pedi para deixar a cortina aberta, senão já era….. sempre acordo com a luz. E lá em Apucarana, o João, que foi o cara que cedeu a casa, não acordou. A gente ia perder o busão feio.

    Ainda falando de Apucarana. Lembro de dar uma banda de moto com o Max e o cara resolve ir a uma barbearia fazer o bigode para arrasar na “naite”…

  5. Alex

    Uma das coisas que mais quero na vida é ouvir Skate Session novamente.

    • dudumunhoz

      Também gosto muito dessa música. Sem querer abrimos diversas portas para tocar em vários campeonatos de skate.
      Forte abraço, dudu.

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