Independência ou morte!

Por ser o compacto mais bem sucedido da Bloody, era natural que JR. Ferreira quisesse lançar um álbum dos PINHEADS. Mas produzir um compact disc independente no meio dos anos 90 era quase impossível.

O dono do Syndicate também comandava a rádio Estação Primeira (Mauricião e Paulo ainda faziam o programa Hardcore) e ofereceu o lançamento de um álbum inteiro dos PINHEADS. Um ano antes, o tal figura idealizou uma coletânea (Curitiba In Concert) com Slack Nipples, Paincult, Primal e Abaixo de Deus. As bandas Slack Nipples e Paincult desembolsaram uma grana suada para gravar no Estúdio Solo com a promessa de ser lançada a tal compilação. Fato que nunca ocorreu.

Os PINHEADS compraram a briga e rudemente questionaram o figura de como lançaria um álbum novo se não conseguia lançar o velho prometido. O figurão se enrolou, embolou o pé no ridículo e começou um monólogo cheio de gírias medonhas do mundo do róque. Percebendo a vergonha alheia no rosto dos PINHEADS, o “dono-da-gravadora-que-nunca-existiu” parou com a lenga-lenga e (ainda) achando que o jogo estava ganho, perguntou para a banda se aceitariam ou não a “genial” empreitada.

Com risco de riso nos lábios, o sempre direto e, às vezes, cínico Júlio, respondeu com um singelo: NÃO! A banda se retirou da reunião com frouxos de riso e com a certeza de que não seriam enganados pelo fanfarrão! Ledo engano.

Com um bom público nas costas era hora de ganhar uns trocados daqui pra frente. Afinal, queriam gravar, viajar e tocar em outras cidades do Brasil. Assim, negociaram mais um show no Syndicate (05/08/1994). Estranhamente, os donos do local aceitaram toda proposta da banda; que depois entendeu o porquê. A entrada seria de apenas dois reais, o grande espaço ficaria com lotação máxima, o dinheiro do bar era do local e um real da entrada era da banda. Júlio colocou seu tio na bilheteria e ninguém entrava sem deixar dois reais na porta de entrada.

Os PINHEADS pagaram passagens de ônibus para os amigos paulistanos dos Tube Screamers abrirem o show. Tinha tudo para dar certo. O local estava lotado. As bandas afiadas. Os seguranças avisados. O público animado. Mas os donos do local resolveram brincar com a paciência de todos. Estava armada a revanche do fanfarrão…  não iria deixar barato o abuso dos três moleques de semanas antes.

Num clima de “vamos queimar a cara desses abusadinhos”, só permitiram que os PINHEADS tocassem depois das duas horas da manhã (de uma sexta-feira) e a qualidade sonora era simplesmente ridícula. O pior equipamento de som que já tinham oferecido para o trio! Por mais que se esforçassem, era difícil agradar aos ouvidos da cansada platéia. Tube Screamers tocou Suffer, do Bad Religion, e Welcome to Paradise, do Green Day.

O cover da vez dos Pinheads era Basket Case, também do Green Day. Paulo, mais uma vez, resolveu abrir a boca, desta vez, com serenidade. Reclamou com razão de toda palhaçada promovida pelos donos do Syndicate:

“Vocês são uns idiotas. Semana passada veio tocar aqui uma banda de São Paulo chamada OKOTÔ e vocês ofereceram um som impecável para meia dúzia de pessoas na platéia. Agora vem uma banda local, trás um público legal, enche a casa e vocês retribuem a gentileza com um som e horário de merda! Muito obrigado! Mesmo“.

Paulo Kotze, baixista e vocalista dos Pinheads

Paulo Kotze, baixista e vocalista dos Pinheads

Certamente, os PINHEADS perderam uma pequena, porém consistente platéia após aquele show. Prometeram a si mesmos que nunca mais tocariam naquele local, que nunca mais negociariam com aqueles fanfarrões. O único saldo positivo foi que botaram mil pessoas para dentro, assim, mil reais entraram na caixinha da banda!

Flyer legal, equipamento lazarento

Flyer legal, equipamento lazarento

Em setembro de 1994, veio a segunda edição do famoso festival Juntatribo, em Campinas. A primeira edição revelou os Raimundos. Já a segunda não revelou ninguém! Tá certo que o Planet Hemp tocou lá e depois fez sucesso, mas o intento não foi devido àquele show. Como a maioria dos festivais “alternativos” da época, o Juntatribo errou ao escalar muitas bandas (29) e muitas tendências (tinha de tudo: rap, noise, metal, tecno, hardcore, industrial, pop, experimentalismo etc).

Em uma tenda de circo, um micropalco capenga foi montado no observatório a olho nu, o lugar mais alto da Unicamp. Muita terra, muito vento, muita fumaça e uma ducha de água fria. O Juntatribo serviu para aterrar qualquer sonho de vida fácil no underground tupiniquim. Mesmo com a presença da imprensa escrita e da MTV, o saldo do festival não foi tão positivo quanto se imagina.

Dava pra perceber que se as bandas não se valorizassem, seria difícil vislumbrar um futuro animador. Depender de produtores com um pé no chão e o outro na lua não era o objetivo de ninguém. No hardcore do festival destaque para o Garage Fuzz que mostrava um advanced do seu primeiro álbum.

Algumas bandas solidificaram laços de amizade no meio do perrengue (PINHEADS, Anarchy Solid Sound, Safari Hamburguers, Beach Lizards, I.M.L., No Class). Foi na segunda e última edição do Juntatribo que Dudu entregou alguns prometidos compactos para o entusiasmado Francesco Coppola. Dali para frente, o amigo Fran foi quem mais fotografou diferentes shows dos PINHEADS e sempre divulgava a banda pelos muitos cantos que percorria.

No Stupid Hardcore Slogans

No Stupid Hardcore Slogans

Num iluminado dia, os PINHEADS cancelaram o apoio que recebiam da Cruel Maniac. Não queriam e não precisavam vincular o nome da banda com uma surfwear. Estavam numa fase na qual uma camiseta básica branca, preta ou listrada, dizia muito mais do que estampas e logomarcas.

4 Comentários

Arquivado em 1994

4 Respostas para “Independência ou morte!

  1. Dude,
    Acho que faltou mencionar o episódio do palco que caiu na primeira noite e que jogou as bandas restantes pro dia seguinte do Junta… sem contar as nossas peripécias de Uno pelas estradas do interior paulista até chegar a Campinas (Barão Geraldo?) e os perrengues que passamos lá.

    • dudumunhoz

      Boa Mauricião! Aquele palco do Juntatribo era muito tosco. Se não caísse no show do Resist Control cairia no próximo! O que foi lamentável (ou nem tanto) pois no segundo dia tocaram muitas bandas e escancarou a verdade do underground brasileiro dos anos 90. Detalhe para a entrevista bêbada dos Pinheads com o reverendo Fábio Massari (mtv): todos “aperitivados”.

  2. Mauricio Gauga

    Opa, conheço essa batera. Que show foi esse da última foto? Eu toquei também?

    • dudumunhoz

      Gau Gau: não sei exatamente a data e local deste show. Acho que foi no Aeroanta. O ano tenho certeza que foi 1994.
      Forte abraço…

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