It´s more than friendly, son

Tocar fora de Curitiba era quase sempre muito bom, mas era na cidade natal que tinham o público mais intenso e receptivo. Quando se tem vinte anos de idade, algumas coisas acontecem rápida e intensamente. Um admirador da banda levava um ou dois amigos e amigas da sua universidade. Todos simpatizantes do punk rock. Uma dessas amigas leva uma outra que nunca ouviu hardcore, mas que estava afim de barulho e diversão.

Uns dois moleques sabem que a bela garota vai marcar presença e marcam com toda turma de se encontrarem no Aeroanta, às 23 horas. E assim, formava-se a massa adolescente. Quarenta por cento gostava da banda. Outros 40 estavam lá pelo rock e pela night. Outros 20% lamentavam o barulho todo, mas lá estavam pois era um dos locais mais cheios naquela noite curitibana. Desse jeito, os PINHEADS levavam 700, 800 pagantes ao Aeroanta.

A base deste público era formada por pessoas que realmente entendiam a verdadeira essência, o verdadeiro espírito e motivo pelo qual a banda estava tocando. Para os PINHEADS, punk rock era sinônimo de público e artista no mesmo nível. De alguma forma, em alguns momentos, um seria o espelho do outro. Procuravam ser inclusivos, não arrogantes e abertos. Neste punk rock, interessava a inclusão de pessoas que se sentiam deixadas de lado ou que estavam desiludidas com seu círculo social.

A idéia era ter disposição para confrontar pessoas ou instutuições que lhe pareciam injustas ou falsas. Não se sentiam conectados com aqueles que eram elitistas, exclusivistas, nem com aqueles que pensavam que seu modo de vida era um modelo de como os outros deveriam viver.

O espaço mais querido pelo grupo começava a ficar pequeno, pois o 92 Graus ainda não tinha a estrutura adequada que o tornou notável na cena curitibana dos anos 2000. Então, a saída era tocar no 92 mas em shows diferenciados. JR teve uma boa idéia e começou a agendar os Take Five. Eram shows com cinco bandas tocando cinco músicas.

Num domingo, 23 de outubro de 1994, se apresentaram PINHEADS, Slack Nipples, No Milk Today, Paincult e Silly Bones. Tocar com bandas amigas era sempre saudável. O Slack Nipples começava a compor também em português. Rodrigo Meister, Trajano, Carmino e Mauricião faziam o segundo show da história do (ainda cru) No Milk Today.

Clássicas filipetas do 92 graus

Clássicas filipetas do 92 graus

Com a certeza de que levariam um bom público, os PINHEADS começaram a produzir seus próprios shows. Podiam tocar quando e com quem quisesse. Se preocupavam com detalhes óbvios, mas que nem sempre eram respeitados em outros eventos. Começavam a peleja num horário sensato. Tentavam colocar algum amigo para discotecar boa música. Faziam um cartaz objetivo e sem firulas. Procuravam colocar um preço honesto no ingresso. Divulgavam pelos quatro cantos da cidade e buscavam trazer boas bandas para tocar junto.

Na maioria das vezes, um show com apenas duas bandas era bem melhor do que com três, quatro ou cinco! Agendavam shows em boas datas, quase sempre aos sábados. Março e agosto sempre eram bons meses, pois era época de voltas às aulas. Gostavam de participar de festivais ou de abrir para bandas mais experientes, mas comandar o seu próprio evento era sempre prazeroso e ensinava algumas coisas. Tinham a consciência de que não poderiam controlar a realidade, mas sabiam que poderiam controlar como lidariam com a realidade.

Júlio tinha um colega na Arquitetura que sempre lembrava que, se os PINHEADS precisassem de alguma ajuda, ele estaria disposto. Assim, a marca do Luli (Luis Guilherme de Santana), do Henrique e do Murilo iria ajudar na parte de divulgação da banda. A Madshades era uma micro marca e não tinha ambições absurdas.

Eles apenas queriam fazer arte. Três quadras do bairro Vila Izabel separavam o local de ensaio dos PINHEADS (churrasqueira da casa do Dude), do atelier da Madshades (que era no caótico e estiloso quarto gigante do grande Luli). Dalí saíam faixas para ficar atrás do palco, adesivos e camisetas. Luli aceitou a “idéia contrafluxo” de Júlio e Dude, e confeccionou uma série de camisetas dos Pinheads com desenhos meio nonsense.

Ao contrário do que uma banda de hardcore apresentaria, o trio colocou como estampa de camiseta desenhos de objetos bizarros como estilingue, pião, catavento, dados etc. Pouca gente entendeu, mas era isso mesmo que queriam passar junto com o nome da banda estampado na camiseta. Queriam confundir um pouco.

A Madshades ajudava e não queria nada em troca. Não queria que a banda crescesse junto com a marca. Não organizava eventos pedindo para que os PINHEADS tocassem. Era esse tipo de apoio que o grupo queria. Além do mais, Luli era boa companhia, viajava na medida certa nas idéias de vanguarda e tinha no currículo o fato de ouvir Devo desde antes dos dez anos!

Pinheads IML Dreadfull Dead FishNo dia 10 de novembro de 1994, os PINHEADS e a Madshades organizaram um belo show no Aeroanta. O line-up trazia bandas de quatro estados brasileiros. Além dos curitibanos, I.M.L. (da capital paulistana), Dreadfull (de Belo Horizonte) e o Dead Fish (do Espírito Santo). Os Peixes Mortos capixabas vieram meio que por conta própria, pois o baterista tinha parentes em Curitiba. Os outros dois receberam passagens e hospedagem.

Os PINHEADS pegavam parte da grana que ganhavam na bilheteria para trazer bandas que gostavam. Naquela noite de quinta-feira, 700 pessoas pagaram ingresso no Aeroanta. Dreadfull abriu a noite com seu som meio Jawbreaker com pitadas de ska. O fugaziano I.M.L. veio na seqüência. Os PINHEADS fizeram seu set característico e o cover da noite foi Walking on the Moon, do The Police. Dead Fish fechou a festa com petardos de sua primeira demo (cantada em inglês) e com uma boa versão de Anesthesia, do Bad Religion.

Júlio Linhares, guitarrista dos Pinheads, 1994

Júlio Linhares, guitarrista dos Pinheads, 1994

Na noite seguinte, na sexta-feira, muita gente lotou o mesmo Aeroanta para ver Spy Vs Spy (detalhe para o baterista usando a camiseta dos PINHEADS do show da noite anterior). E no sábado: Ramones, Sepultura, Viper e Raimundos tocaram na Pedreira Paulo Leminski. Era a turnê Acid Chaos e os Ramones tocaram pela primeira e única vez na terra dos pinheirais. O ponto alto foi quando tocaram o cover do Creedence Clearwater Revival, Have You Ever Seen The Rain, depois que o céu já tinha desabado sob a capital do Paraná. Foi um final de semana marcante para muitas pessoas.

5 Comentários

Arquivado em 1994

5 Respostas para “It´s more than friendly, son

  1. Renato Obrigatorio Robert

    PARABÉNS!!!!

    Continua a saga ou pára por aqui?

    Cheers

    • dudumunhoz

      Boa Panq. A história vai até o final da banda em 1996. É só seguir o anuário (canto superior direito). Ou ir clicando no capítulo seguinte após a leitura de cada capítulo. O link para o próximo capítulo está acima do título do capítulo, logo abaixo da foto principal… sacou? Forte abraço e aguardo mais comentários. chEErs!

  2. Na sexta feira teve o primeiro show do ExLax no Politécnico.
    Tinha voltado de Porto Alegre, fui assistir os Ramones por lá. Sexta à tarde primeiro show da (minha) banda, à noite Pinheads e sábado Ramones de novo !!!
    Não querendo ser saudosista mas PQP que final de semana hein ???

    • dudumunhoz

      Um final de semana inesquecível para muitos curitibanos. E pra você mais ainda pois debutou e viu Ramones em Poa. Corrigindo então: Ramones Poa, Pinheads (foi numa quinta), ExLax (na sexta) e Ramones na Pedreira no sábado. Aquela sua foto com Joey Ramone é desse final de 1994???

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