Curitiba – São Paulo – Rio de Janeiro

Dois shows iniciaram a temporada dos PINHEADS nos palcos curitibanos. Um deles, totalmente lotado, no pequeno Mary Jane (18/03/1994). Abertura dos amigos Slack Nipples. Os covers da noite foram Gonna Find You, do Operation Ivy e We´re Only Gonna Die, do Bad Religion. Fizeram uma boa negociação com o dono do bar e até receberam porcentagem da bilheteria que resultou em um modesto, porém honesto cachê.

Set List do show no Mary Jane

Set List do show no Mary Jane

A agitação e lotação eram tão grandes que gotas de suor despencavam do teto. O amigo Alexandre Magrão (baterista dos Sarnentos e Sick Sick Sinners) recebeu uma cotovelada no pogo, e sua camiseta branca dos Sex Pistols ficou toda vermelha, manchada de sangue. Magrão não deu muita bola e continuou na roda. No final do show, a camiseta estava branquinha novamente! Neste dia, a galera do pogo tomou, literalmente, um banho de suor e energia.

Pinheads Hardcore_session

Palavras do Magrão: Cara, rolou um pogo nervoso daqueles de exorcisar a semana toda. Teve Slack Nipples antes. Aquele porão escorregadio pra caramba com as paredes suando e a gente se quebrando. Eu usava uma camiseta branca dos Sex Pistols, Never mind the Bollocks, quando tomei uma porrada no nariz e nem senti que estava sangrando. Quando percebi a camiseta estava vermelha de sangue, inteira de sangue na parte da frente.

Vi que havia parado de sangrar e continuei no pogo… e não é que o suor limpou a camiseta, cara!? Fiquei encharcado de suor, inteiro molhado. Saiu tudo, depois ficou meio amarelada.
Lembro que o show foi do caralho, muita energia, melhor show dos Pinheads pra mim.”

Pinheads Flyer_Aeroanta_Magog

O outro show foi o debut dos PINHEADS no Aeroanta de Curitiba, dia 30 de março. Tocaram com Magog, Falsa Doutrina e Resist Control. Foi uma boa estréia, local abarrotado, som bom. E perceberam que precisavam melhorar a performance em palcos maiores e mais audíveis. Nesse dia, um carro entrou no corredor de entrada do Aeroanta!! Um rapaz tinha sido expulso do local por truculentos seguranças e sua “irada” forma de protestar foi colidir violentamente seu Kadett prata na porta do estabelecimento.

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Recorte do jornal Gazeta do Povo

Dalí poucas semanas, o punk rock estaria nas MTV’s de todo mundo, com o estouro de Offspring e Green Day. No Brasil, uma banda parecia que ia estourar e, antes que isso acontecesse, JR. promoveu um show grande no Palácio de Cristal, no Círculo Militar. Na noite de 30 de abril de 1994, cinco bandas tocaram num palco de dois metros de altura: Intruders, Cervejas, Pinheads, Pin Ups e Raimundos.

Primeiro show dos Raimundos em Curitiba, um pouco antes de estourar

Primeiro show dos Raimundos em Curitiba, um pouco antes de estourar

Poucos meses depois, o rock pauleira dos Raimundos e do Planet Hemp estaria no mainstream. A maioria da molecada que iniciasse uma banda passaria a cantar em português. Depois da overdose de bandas nacionais nos anos 80, todas cantando na língua pátria, era perfeitamente natural para a geração do início dos anos 90 cantar em inglês. Sepultura cantava em inglês, Ratos de Porão acabava de lançar um disco em inglês e quase todas as bandas de punk/hardcore que apareciam seguiam pelo mesmo caminho.

Porém, a dificuldade para lançar um disco era enorme. Cantar em português era muito mais viável caso a sua idéia fosse “viver-de-roque”. Os PINHEADS não tinham nenhuma pretensão comercial, cantar em inglês foi uma escolha natural e essa estética não seria mudada.

Ensaios aos sábados na churrasqueira do Tio Zéca e da Tia Sula

Ensaios aos sábados na churrasqueira do Tio Zéca e da Tia Sula

A banda seguia a rotina de ensaios aos sábados e um show por mês. Os ensaios eram freqüentados por qualquer um que quisesse. Inclusive por bandas de outras cidades que vinham tocar em Curitiba, especialmente no 92. Uma das visitas mais toscas foi do insano grupo joinvilense The Power Of The Bira. Dizem que foram eles que disseminaram a expressão “Toca Raul!”.

Para não virar “arroz de festa”, os PINHEADS tentaram ficar um bom tempo sem tocar em “casa”. Resolveram também dar mais atenção à qualidade do som. Dudu comprou uma bateria Mapex, Júlio uma guitarra Ibanez clássica e um amplificador Marshall, e Paulo uns microfones bem bons. No meio do ano, foram ao estúdio Clean Sound e gravaram ao vivo cinco músicas novas, apenas para ver como iam ficar. Ficou melhor que a demo Where´s The Silver Tape?.

A Cruel Maniac estava lançando uma nova coleção de roupas e escalou PINHEADS (e Resist Control) para dar uma canja ao lado do estreante No Milk Today. Silly Bones (banda do estudante de publicidade Juliano Ribas) e OZ (de Brasília) também estavam agendadas para essa festa de lançamento no 92 Graus, dia 17 de junho. A canja era pra ser uma surpresa, mas os produtores fizeram até camiseta e cartaz do evento com o nome dos PINHEADS. Mesmo a contra gosto, o trio tocou. No meio do set, problemas elétricos acabaram com o show e com a paciência de todos.

Surpresa ao ver o nome da banda no cartaz!

Surpresa ao ver o nome da banda no cartaz!

Uma semana depois, na megalópole paulistana, tocaram no Urbania ao lado de White Frogs e I.M.L.. Local pequeno e interessante, principalmente por ter uma mini rampa de skate. Termômetro perto de zero grau (25/06/1994), público mediano e vários contatos. Um desses contatos foi com o grupo Cold Beans do skatista (e editor do fanzine Clean Sheets) Cesinha Lost.

Com um ano de atraso, finalmente tiveram o prazer de conhecer César Lost, responsável por colocar músicas dos PINHEADS nas primeiras edições em VHS dos vídeos de skate Silly Society. Lost ajudava Cristiano Mateus e Alê Vianna na produção dos Silly Society, e recheava a trilha sonora com muito punk/hardcore. Outro encontro se deu com Júnior, baixista do White Frogs. Ele tinha escrito uma Scene Report para a MAXIMUMROCKNROLL. O texto de meia página reportava a cena punk/hardcore brasileira do ano de 1993 e os PINHEADS tiveram uma foto publicada no fanzine mais  influente do punk americano.

Show com Pinheads, I.M.L. e White Frogs em S.P.

Show com Pinheads, I.M.L. e White Frogs em S.P.

No Rio de Janeiro, tocaram em um campeonato de skate (organizado pela marca HOMEY) dentro do Scala, tradicional casa de bailes de carnaval no Leblon. Camarim com cachorros quentes e muita água. Na frente do palco, na pista de dança, foi montada um espaço para street. Após o término do evento, imediatamente, se iniciou outro, com o funkeiro Latino. A má divulgação do campeonato não trouxe muitos frutos ao trio. Mas a já consolidada amizade com os Beach Lizards valia a viagem.

Laércio, Dudu, Cláudio, Paulo e Júlio

Laércio, Dudu, Cláudio, Paulo e Júlio

Não restritos ao lema “sexo, drogas e rock and roll” essas viagens eram, antes de tudo, uma celebração entre amigos. Um chopp no Baixo Gávea, vídeo do Damned na casa do Nervoso, surf em Grumari, almoço na casa do baixista Laércio e aquela frenética troca de informações roqueiras. Um Cock Sparrer e um The Boys pra lá. E Stiff Little Fingers e 999 pra cá. Paulo fala um pouco sobre isso:

Chegamos de manhã na rodoviária e fomos recepcionados pelo Danúbio Aguiar, zineiro e amigo. Dentro de um ônibus numerado em direção da zona sul, saindo da rodoviária, o Danúbio avista o Leonardo Panço, da banda Soutien Xiita e grita: “Panço, filho da mãe!” O motorista pára e entra o Panço no busão para nos acompanhar em direção ao show. Local? Boite Scala, de Chiquinho Recarey, atual símbolo da putaria gay carnavalesca da cidade maravilhosa.

Panço, Paulo, Danúbio, Júlio e Dudu. Água mineral no camarim do Scala

Panço, Paulo, Danúbio, Júlio e Dudu. Água mineral no camarim do Scala

Dude ficou feliz com a presença de um skatista das antigas chamado Cesinha Chaves, que filmava o campeonato para o programa Vibração. No final, chegaram nossos amigos do Beach Lizards e ficamos tomando conhaque e cerveja à tarde.

Turismo, amizade e punk rock no R.J.

Turismo, amizade e punk rock no RJ

À noite, numa tosqueira danada, fomos ao Canil Pub em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde todas as 10 pessoas presentes esperavam uma canja do Pinheads. A qual não aconteceu. Decepcionamos um alcoolizado Danúbio e fomos em direção a uma boite de Copacabana chamada Basement, ciceroneados por Nervoso e sua irriquieta namorada Bia. Muita sonzeira de qualidade num porão altamente promíscuo e tosco. A travesti Rogéria marcava presença nos arredores. Nem me lembro da volta, pois a amizade com os cariocas era tudo o que me interessava naquele momento. São amigos meus de sangue até hoje. Apesar de pouco nos falarmos. Pinheads era isso aí…”.

23 Comentários

Arquivado em 1994

23 Respostas para “Curitiba – São Paulo – Rio de Janeiro

  1. Laércio

    Belíssimas fotos!
    Saudades dos bons tempos…
    Friends 4 ever!

  2. Eu fui nesse show do Mary Jane e me lembro muito bem da camisa do Magrão!!! Tinha acabado de conhecer Operation Ivy… o show foi realmente escorregadio!!!

    • dudumunhoz

      Belo comentário Maurício! Lá embaixo do Mary Jane estava lotado… um forno… uma sauna quente e molhada. Tudo molhado: chão, pessoas, paredes, teto. Foi o recorde de baquetas caindo de minhas mãos. Mesmo assim foi um show excelente! Forte abraço. Dudu

  3. Demetrius

    “Nervoso e sua irriquieta namorada Bia”… huahuahuah
    Grandes lembranças de vocês amigos!
    Apesar da distância… vocês estão no meu coração!!

  4. Dude, você esqueceu de colocar nesse show do Aeroanta, o gesto meu de dar uma força para o segurança no stage dive, tá lembrado? Tem até em video. O cara empurra meu irmão para baixo, eu largo a guita e empurro ele para a galera. Ele cái aos pés de Minduim e Jean Lobo, os quais o acolhem com “Xutos e Pontapés”. Saí do Aeroanta disfarçado e escoltado antes de acabar tudo…..

    • dudumunhoz

      Outra treta que já tinha esquecido. Primeiro e “quase último” show no Aeroanta. O segurança ficou bem mal né?

  5. Agora, o show do Mary Jane, o qual tocamos de costas para o público foi lindo! Tinha 3 dedos de suor no porão. Show que deu trabalho, pois uma banda também não veio. Tivemos que correr atrás de equipamento (JR92) e Slack….. 540 pessoas lá…. alguém acredita? Quem conheceu o lugar nunca acreditaria.

    • dudumunhoz

      Tocamos meio de lado. 540 pagantes num calor de verão! Não me lembro de uma outra banda ter cancelado. Na minha cabeça sempre foi um show Pinheads + Slack Nipples. Valeu…

  6. Sim, era uma outra banda…. não lembro o nome. Lembro que tive que pedir ajuda pro Jota Érre para arrumar PAs. porque a outra banda ia trazer o equipo e não veio.

  7. Paulo Kotze

    Não posso deixar de salientar o risco feito provavelmente por um de nós no nome da banda Falsa Doutrina no convite do Aeroanta. Apesar dos caras serem gente boa, estávamos revoltados por tocar com uma banda totalmente pop. A cena do Júlio empurrando o segurança é um colírio para meus olhos neste momento. Lembro que depois do show o tempo fechou com os seguranças, e mantivemos as câmeras ligadas de vídeo em caso de agressão ou massacre a 3 pirralhos tocando numa casa noturna de renome… Saímos batidos mesmo…

    • dudumunhoz

      Acredita que eu nem me lembrava mais desse stress com os seguranças? Vou incluir algo sobre isso no texto. O Júlio acha que o risco no convite foi feito por que a banda não iria tocar mais… e no final acabou tocando mesmo.

  8. Sole

    Essa do carro do Aero foi excelente! Lembro que tava com o Julian no show.

    Ele até comentou comigo hoje ” Cara, não era um Kadett?”

    • dudumunhoz

      Era um kadett mesmo Sole. Paulo confirmou e a minha fonte que achava que era um chevette disse que poderia ser um kadett mesmo.
      Já corrigi. Alright!

  9. Cara… na primeira vez que fomos ao RJ, lembro do “show extra” que a galera tentou agitar em Nova Iguaçu… estávamos no carro do Nervoso embaixo de uma chuva forte e uma brasília que ia na frente simplesmente perdeu a roda… achei que naquela hora a gente realmente ia bater e ficar parado lá por horas.

    • dudumunhoz

      Bela lembrança Júlio!!! Avenida Brasil, sábado à noite, chuva torrencial e carro parado… A História do Pinheads seria bem mais breve do que foi!!!

  10. Laércio

    Mais uma história que não dá para esquecer. Show Pinheads+Beach Lizards NA Aeroanta em Ctba (foi assim que saiu na camiseta, que tenho até hoje, toda velha. Vou tirar uma foto dela pra mandar). O show foi para arrecadar dinheiro para o Pinheads gravar uma nova demo (eu acho). Aeroanta lotado. Na noite anterior havia aberto o queixo numa queda após alguém me empurrar no show do No Class no 92. Dormi na casa do Paulo Kotze, mas o doutor estava sem condições de suturar o dano. Também, só fomos perceber o estrago no dia seguinte de manhã, quando acordei com a camisa toda ensanguentada. Tarde demais para dar ponto. E a marca ficou até hoje…

    • dudumunhoz

      Na Aeroanta… era pra confundir um pouco. O mais tosco era quando o Abonico (da Gazeta do Povo) perguntava como se escrevia o nome dos integrantes. Cada vez a gente falava de um jeito. Numa reportagem ficou: Duda, Paule e Julhe.
      Esse show do No Class no 92 Graus era pra ser o último show do 92 na Visconde do Rio Branco. Depois o 92 foi pra Alameda Cabral. Lá teve vários shows, inclusive uns gringos tipo Sick Of It All e All You Can Eat. Mas durou poucos meses e depois voltou pro antigo e já clássico porão.

      O punk rock deixa cicatrizes eternas Laércio. Forte abraço.

  11. Poxa cara eu queria ter vivido isso. Mas até hoje a única coisa que eu consegui foi tocar batera como substituto numa igreja… Cara! Pinheads foi e sempre será a melhor banda de punkrock do Brasil.

  12. Hélio Godoy

    Nos anos 90 acompanhei a cena punk-hardcore da city, e lembro bem dos shows do Pinheads, eram irados! Tenho várias passagens da época, mas cito pelo menos três shows que me marcaram: no Palácio de Cristal no dia que tocou Raimundos pela primeira vez em Curita (depois do show encontramos os caras na Rua 24h e tomamos uns chopps juntos); no Syndicate com o Ratos e Anões, com direto a grade derrubada e mosh da estrutura das luzes; e na Fábrica de Vagabundos, com direito a mosh de cima da caixas de som do palco. Bons tempos…

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