Hand In Head

Era hora de gravar as novas músicas. Doze petardos foram compostos desde Silver Tape. Tinham uma grana contada, que cobriu o custo para gravar, em dois dias, no Estúdio Solo. E ainda pagou quatro passagens de ônibus (duas de ida e duas de volta) para João Gordo. O vocalista dos Ratos de Porão tinha uma boa relação com os PINHEADS e, sempre que aparecia em Curitiba, recebia uma visita, uma camiseta ou a gravação em cassete de um novo álbum do D.I.

Numa dessas vezes, João Gordo recebeu a gravação ao vivo que tinha sido feita no meio de 94, com cinco músicas novas. E aceitou o convite para produzir o novo material. João não cobrou nada e sem nenhuma frescura dormiu por duas noites em um quarto improvisado na casa do Mauricião. O vocalista da banda punk mais famosa do Brasil mostrava um ecletismo impressionante no seu case de CD’s: música eletrônica, thrash metal, Racionais Mc’s, Smash do Offspring e o álbum azul do Weezer.

No estúdio, João se preocupou, primeiramente, com o fundamental: afinação, equalização, timbres. Dispensou uma mesa digital e preferiu trabalhar em uma analógica. Vetou o uso do contra baixo empenado do Paulo. Segundo Gordo, o instrumento de quatro cordas mais parecia um berimbau! O auto intitulado quarto pinhead Mauricião, teve que sair correndo para catar no Guabirotuba seu singelo, porém decente, contra-baixo.

Depois, Gordo jogou a responsabilidade para os três PINHEADS. Victor França foi o engenheiro de som. O trio estava mais veloz do que nunca e a maioria das músicas já tinha sido bem testada em cima dos palcos. A gravação e mixagem ocorreram nas noites do dia 31 de março e no Dia da Mentira. Estavam muito bem ensaiados, mas o tempo era curto. O esquema de gravação foi bem simples: bateria e baixo, uma guitarra, depois outra, vocal principal e backing vocals.

João Gordo dava poucos palpites, mas a sua presença aumentava a responsabilidade de todos. Paulo e Júlio fizeram backing vocals e os amigos Mauricião e Alexandre (dos Anões de Jardim) também deram seus gritos. Alguns erros acabaram ficando (principalmente de Dude, em Slowmotion), mas João Gordo tranqüilizava com frases do tipo: “Deixa assim… pureza punk”. Quando alguém errava, o outro também relevava: “Agora já foi… a tosqueira governa”.

As doze músicas mostravam um hardcore veloz e belas melodias. O som estava mais pesado e as músicas menos óbvias. Três quartos das músicas eram porradas de até dois minutos. A veia punk rock latejava em algumas faixas e estourava em It’s In Your Hands e Slowmotion.

Júlio ficou encarregado da concepção gráfica. Mauricião transcreveu as letras de próprio punho. Os zineiros Raí e Luís Junior colaboraram com o desenho da capa. Dude, como sempre, elaborou a ordem das músicas. Inspirado pela capa do primeiro álbum do Down By Law, Paulo deu o título: Hand in Head. “Mão dentro da cabeça” remetia à alguém levando a mão à cabeça diante de alguma emoção positiva ou negativa.

Pinheads capa Hand_in_head

Durante a composição das músicas de Hand In Head, Dude, Paulo e Júlio se entendiam apenas com um olhar, um sorriso ou uma cara feia. As músicas vinham naturalmente, os arranjos, as paradinhas, as finalizações. A idéia de um se encaixava na do outro. Tudo fluía naturalmente. Era um prazer ensaiar, fazer música e escrever letras.

Pinheads capa_Hand_in_head principal

Irritantemente apaixonados por música, mas um pouco iconoclastas, Júlio, Paulo e Dude tinham, cada um, suas obras musicais favoritas, e sabiam que seria proveitoso pesquisar e descobrir as origens e as fontes. Quanto mais informação, mais entendimento e menos mitificação. Isso de forma alguma desvalorizaria suas predileções, a não ser que o álbum (ou banda) não fosse verdadeiro e não tivesse personalidade e forma própria.

Os PINHEADS gostavam de quase tudo relacionado a punk rock e hardcore. Amavam Hüsker Dü tanto quanto amavam Dag Nasty ou Bad Religion. Curtiam Ramones tanto quanto The Clash e The Damned. Gostavam igualmente de Pennywise, Sick Of It All, G.B.H ou Subhumans. Queriam ter escrito alguma música dos Beach Lizards, dos Muzzarelas, do Slack Nipples, dos Inocentes, dos Ratos ou do Primal Therapy .

Mas em Hand In Head, os PINHEADS estavam fazendo apenas e exatamente o que eles sabiam fazer: um feijão com arroz bem apimentado. Compensavam suas limitações técnicas com velocidade e energia. Das 12 músicas, apenas duas tinham mais de dois minutos! Na mixagem, João Gordo sugeriu deixar o volume do vocal “um cabelinho” mais baixo do que o normal. Foi uma idéia acatada.

Assim, não jogavam tanta responsabilidade na esforçada voz de Paulo e destacava-se o que era mais relevante: a sonoridade, o punch e a dinâmica das músicas. Paulo escreveu muitas músicas, Júlio mais da metade e, no final, até o baterista Dude poderia receber um pouco de crédito. Quarenta por cento das letras foram compostas por Paulo, trinta por cento por Dude e o trinta por cento restante era uma dobradinha Paulo/Dude.

Encarte com créditos e letras

Encarte com créditos e letras

De autoria de Paulo, Friendly Song abriu o registro. Sonoridade Nofx e letra mostrando que a música, muitas vezes, pode ser como o cão, o melhor amigo do homem. Na letra, uma homenagem à banda amiga Dreadfull:

“It´s more than friendly, son/ It´s in the corner of your room/ Listening to Dreadfull/ Loud in your headphones…”.

Palavras de Paulo: “Compus sentado em casa em 10 minutos num papo com o Seixas… a letra saiu em 5 minutos”.

Take a Decision, música composta por Júlio, trouxe a primeira dissonância no som da banda. A letra foi composta por Dude, dia 25 de dezembro de 1994, após uma cerveja na casa do supra-citado Seixas. Dilemas amorosos em datas comemorativas castigavam o indeciso e adolescente baterista. Traduzindo, dizia:

“É bom conversar com pessoas interessantes/Escutando músicas que lembram romances/Bebendo latas de 300 ml’s/Pensando com os olhos lá longe/ Amanhã, sei que ela pode não ser mais minha/ Mas, desculpa, tenho muitas dúvidas”.

A terceira música de Hand In Head era Worth It?. Inteiramente composta por Paulo, uma das melhores, mais furiosas e rápidas dos PINHEADS. Paulo escreveu a letra em homenagem ao recém-falecido colega Aderbal.

It’s In Your Hands: mais uma música de Júlio, com letra de Dude. Inspirado em Bill Stevenson, Dude resolveu escrever (no dia do seu aniversário de 20 anos) a letra de amor mais escancarada dos PINHEADS.

Somebody Help Me: música de Júlio e Paulo. Letra: Paulo. Uma das agressivas que mais funcionavam nos shows. O hardcore mais direto e certeiro do grupo.

A demo chegava na metade com uma música 100% Paulo: We Still Have Time. Paulo não queria compromisso finalizando com “Give me some reasons to link me, I know it´s good, but I can do it 10 years later, I give a shit to what they think!, Beer still speaks louder than you do”.  Dez anos depois, ele faz o mea-culpa: “Não queria namorar, somente curtir e deixar as coisas como estavam. Mas fui muito estúpido nessas horas, tratava mal algumas mulheres”.

Try!: música de Júlio e letra de Paulo. Começava com guitarra bem ao estilo do guitarrista e logo vinha a porrada costumeira. Para quebrar o clima, Júlio (fascinado por Operation Ivy na época) tratou de colocar um skazinho bem simples e Paulo finalizava com vocal falado e distorcido inspirado em Dave Smalley, na música Punk As Fuck, do Down By Law.

Júlio também estava inundado por No Fun At All e compôs Destination Zero. Dude e Paulo trataram de fazer a letra. O sing-along Oooh Eooooh Eoh no final era uníssono em shows de 1995. Dude intitulou a música homenageando uma banda alemã (projeto de membros do Razzia e do Slime) de mesmo nome.

Can You Hear Me? também era música Júlio + letra Dude e Paulo. Desespero e agressividade por todos os lados: letra, baixo sozinho na paradinha, início caótico da bateria etc.

O contraponto veio com Slowmotion, uma canção mais roqueira, mais lenta, com guitarras elaboradas e backing vocals. Mais uma música do inspirado Júlio e mais uma letra de Dude. O baterista se desculpava por mais uma letra desanimadora. Na tradução:

“Me desculpe, você não tem nada a ver com isso/ Só quer diversão e eu aqui… jorrando minhas dúvidas em seus ouvidos/ É que música tem sido meu único refúgio, mas você tem sido o único alvo/ Então se importe apenas com o som ao redor de sua cabeça”. No refrão, Paulo alternava sotaque estado-unidense e britânico em “last” e “fast”.

Today Is The Day: música Paulo, letra Dude. Hardcore em todos os sentidos. Velocidade, agressividade, letra indignada.

Dude sempre quis uma música dos PINHEADS começando com vocal bem ao estilo dos australianos do Hard-Ons. Infelizmente, a única que tinham nesse naipe era Luxury Bitches. Por isso, Dude sugeriu ao vocalista Paulo que começasse Face the World berrando o título da música. Não era exatamente um lance Hard-Ons, mas ficou legal. A fita demo acabava com uma faixa escrita pelos três. Letra positiva e encorajadora. No final de Face The World a característica melodiosa do trio amaciava os ouvidos após os doze petardos de Hand In Head.

11 Comentários

Arquivado em 1995

11 Respostas para “Hand In Head

  1. Muito legal esta matéria… saudades daquela época.

  2. lagarto

    Tempo bom, já não volta mais…
    Muito massa o blog!
    Tenho até hoje essa fita do Pinheads HAND IN HEAD. Já vou separar para ouvir de novo.
    Abraços

  3. Seixas

    Não tenho nenhuma lista no meu mp3 que não tenha músicas do Pinheads!

    Momentos inesquecíveis de amizades, rock, viagens, cagadas, sustos e muuuita, mas muita diversão!

    Obrigado Paulo, Dudu e Julio! Vcs compuseram a trilha sonora da minha vida!

    nota: aquela cerva ainda rola por aqui, é só chegar!

    • dudumunhoz

      Grande 6Xas!!!! Esse conhecia Pinheads como ninguém. Obrigado pelas palavras e pelos momentos híbridos. Forte abraço C-X…

  4. Paulo Kotze

    Realmente “worth it” era uma das melhores mesmo… Puta que o pariu, uma música furiosa, indignada, feita em homenagem a um amigo meu, da faculdade, que aos 40 anos, no segundo ano de medicina, faleceu numa batida de chevette no interior do estado. Foi foda.

    Na verdade, a demo HAND IN HEAD, na minha modesta opinião, foi o auge do grupo, e não a coletânea. Era uma demo com músicas excelentes, rápidas, uma porradaria só, com tosqueira equilibrada por uma qualidade duvidosa. Um cara da Argentina queria lançar lá em disco, e acabou não dando certo. Ele achava Pinheads “una banda KILLER!” e me ligava direto, pois ele fazia questão de ter uma banda no seu selo com a producao do Gordo. Achava que venderia legal. Mas aí o Gordo que não era mané nem nada, vetou o cara, pois ele não queria pagar ninguém, nem a banda nem o Gordo…

    Hand in Head… Saudades…

    Imagine em castelhano: “ENCARE EL MONDO”, ou uma do tipo “DESTINACIÓN NULA”… Seria folclórico…

    1995 foi um dos grandes anos da minha vida pessoalmente. Realizações pessoais e uma harmonia que tive em poucos anos…

    Muito legal relembrar isso…

  5. Pedro

    Hand in Head é uma demo q da gosto de ouvir!

    Sonzera q só me lembra Skate!

  6. Noel Lobo

    eu escutei essa fita… e escutei de novo… de novo.. mais uma vez… e de novo… e de novo… a mais uma… e não conseguia parar de ouvir durante meses.

  7. Its in your hands é a melhor música, e Hand in Head o melhor material !!!

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