Relato do Fabian – Parte Um

Fabian, vocalista do Confusion relembra Pinheads:

Como explicar a importância do Pinheads para geração de hoje, com todo mundo sentadinho na frente do computador baixando discografias inteiras, mas sem paciência para ouvir uma música sequer? Tirando foto, escrevendo blog e montando fotolog antes mesmo da primeira composição? Na real, é impossível. Por isso meu relato deixa propositalmente de lado toda a perspectiva histórica e passa apenas pela visão pessoal. É a banda a partir do meu ponto de vista.

A primeira vez que eu vi e ouvi o Pinheads foi ao vivo, um show no Syndicate. Nunca tinha ouvido falar da banda, acho que fui na balada para encontrar uma garota de cabelo colorido que estudava na PUC e eu curtia demais. Fato é que uma coisa me impressionou logo de cara: havia bastante gente ali e quase todo mundo estava lá pra ver e agitar com a banda. Muitos até sabiam as letras das músicas. O set era composto quase que somente por músicas próprias. A exceção foi o cover de “American Jesus”, então do recém-lançado Recipe For Hate do Bad Religion. O pogo correu solto, igualzinho aos vídeos do Dead Kennedys e do DRI que eu tinha em casa.

Ir nesse show foi um dos passos definitivos para que eu realmente montasse uma banda. O primeiro foi ouvir o No Control. Mas essa é outra história, a do Confusion.

Voltando ao Pinheads, mais algumas observações desse (meu) primeiro show. Ao vivo, a banda era tosca. A guitarra do Júlio estava sempre apitando, muita microfonia. O Paulo, sempre hiperativo, pirava e soltava umas gírias meio sem sentido (principalmente pra quem não era da “turma”). Sempre tinha um começo de música em falso, coisas desse tipo. Isso nunca mudou, até o fim da banda. Mas ao mesmo tempo, de um jeito meio (mondo) bizarro, era uma banda absolutamente coesa, fluída, espontânea e forte, que contava com um maravilhoso repertório de músicas próprias. Composições simples e diretas, simplesmente fantásticas, combinando melodias extremamente assobiáveis com ótimos riffs, muita velocidade e energia.  Larguei momentaneamente da garota, fui para o pogo e o Pinheads ganhou mais um fã.

Lembro de comprar a demo “Where´s The Silver Tape” no CD Clube do Shopping Omar e ouvir aquela fita todo santo dia. Era o tal do hardcore melódico, antes do estouro do Bad Religion, do Green Day ou do Offspring. Era como se a gente tivesse uma dessas bandas na ativa por aqui. Ligação direta entre Califórnia e Curitiba. É claro que todo mundo ouvia as bandas da Epitaph na época, até porque muitas delas eram ótimas. Porém, o que fez do Pinheads uma banda diferente é que eles tinham as mesmas influências das bandas que estavam ouvindo, como NOFX , Down By Law ou Rancid. Punk rock nerds, os três: Júlio, Paulo e Dudu. Pode colocar aí na roda: Ramones, Pistols, Buzzcocks, Dead Kennedys, Adolescents, skate rock, The Police, new wave, punk tosco sueco, ALL, Descendents, Clash, Cólera, Inocentes. E literalmente uma porrada de outras referências, da Europa, do hardcore americano dos anos 80, do indie rock, do bubblegum, dos desenhos animados, de tudo.

Pinheads logo

Graças ao Pinheads vi uma porrada de bandas legais da geração 90 do punk nacional. IML, No Class, Beach Lizards, Dreadfull, Dead Fish, PinUps, Barneys. Isso sem falar das bandas daqui, como No Milk Today, Cervejas, Ex Lax e os não menos excelentes Slack Nipples. Os shows dos caras no Aeroanta eram antológicos. Mil pessoas, talvez mais. Um underground realmente forte. Acho que ninguém se dava conta do quanto. As bandas eram diferentes entre si, cada uma com um som bem característico. Pra mim, o Pinheads era a melhor da época.

O furor continuou com a demo Hand In Head, produção do João Gordo. As letras eram muitas vezes escapistas e ramônicas, outras mais sérias e pessoais, algumas love songs, sempre bem humoradas, nunca engraçadinhas. Mais shows inesquecíveis, como a abertura para o Toy Dolls, com punks “anarquistas” cuspindo nos caras até rolar um cover de uma banda sueca pra lá de underground, essa sim, realmente “truth”.

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Arquivado em 1996

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